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Uma grande vitória poder divulgar o nosso projeto!
A OFICINA DE LEITURA E CRIAÇÃO LITERÁRIA
3A. IDADE CLARETIANAS FOI UM DOS PROJETOS SELECIONADOS PARA APRESENTAÇÃO NO III FÓRUM DO PLANO NACIONAL DO LIVRO E DA LEITURA E NO III SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE BIBLIOTECAS, EM AGOSTO DE 2010.
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quarta-feira, 6 de abril de 2011

Sucessão inesgotável de lembranças

Antonio Moreira

A vida é uma sucessão inesgotável de lembranças - um eterno "EU ME LEMBRO". Daí, a validade do título desse trabalho, eis que intimamente ao que temos mais valioso, que é a memória.
E tudo é belo, quando as coisas de que lembramos nos dão alegria, prazer, emoção, tais como: a infância, nossos pais, nossos avós, o afeto e o carinho deles em relação aos filhos e netos e aos parentes mais distantes. As pequenas e grandes vitórias pessoais de todos nós, a partir das notas do colégio. O cair da tarde, o cultivo do BEM, para os quais diária e constantemente nossos pais nos chamavam a atenção. A solidariedade de modo geral e particular, os pequenos e grandes adeuses, os passeios às casas dos amigos e parentes, a comidinha feita por nossas avós, o encontro com os primos, que são irmãos de sangue. O declamar de poemas na escola, na forma orientada pela professora - eu me lembro de todas as professoras. Eu me lembro que meu pai gostava de ouvir o cantor AUGUSTO CALHEIROS, principalmente quando ele cantava " CAI A TARDE TRISTONHA E SERENA, EM MACIO E SUAVE LANGOR" Esta última palavra despertou-me a curiosidade, e muito cedo descobri que langor é originário do Latim - languor -, e em portuuês quer dizer moleza, falta de ânimo, indulgência, complacência, etc. Eu me lembro, com saudade e carinho, das tardes dançantes, na Casa do Estudante, no Rio, realizadas num salão bonito e simples, em ambiente familiar, "fiscalizado" por uma senhora importante e educada.
Ela conhecia todas as meninas e meninos. Todos cumprimentávamos aquela senhora, com respeito, que passava à admiração. Sua "atuação" era tão grande, afetiva, que qualquer namorinho tinha de passar pela aprovação dela, que era um amor de pessoa.
Era tudo muito lindo, muito puro, ingênuo mesmo, creiam-me. Daqueles momentos eu me lembro e me membrarei para sempre, eis que imorredouros.
Por não cultivar passado sombrio, triste ou revoltante, faço o possível, segundo minha frágil condição humana, para não cultuar ódio, mas acontecimentos sadios, os quais, com imenso prazer, EU ME LEMBRO!

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Exclusão - Parte II


Identidade: elemento fundamental na personalidade humana

Ficção de Antonio Moreira

Dias atrás visitei um amigo que não via há muitos anos, cujo nome é Mário Meira. Seu sobrenome, na verdade, por ascendência deveria ser Duarte, como o de seu pai, meu avô. Até pouco tempo eu ignorava meu nome legítimo de família; meus irmãos morreram sem ter o mínimo conhecimento.

Alegre e generoso, recebeu-me principescamente. Ato contínuo, disse-me: “nossa amizade, como toda amizade, tem um toque de eternidade, pois embora distantes físicamente há mais de dez anos, sempre nos fizemos presentes pelos contatos, telefônicos e por cartas que mantivemos, no decorrer de nossas histórias.”

Respondi-lhe, concordando literalmente com suas palavras, verdadeiras e sinceras, sobretudo. Prosseguindo em sua manifestação de confiança e afeto, confessou-me o seguinte: “Sou um homem de vida equilibrada, tenho um casamento com a Carmen, a qual me completa. Entretanto, minha vida tem um lado muito triste, que me faz, de certa forma, irrealizado. Talvez você não saiba, certamente por omissão e constrangimentos meus. Nasci e fui criado sem ter ouvido – jamais – falar em meus avôs paternos, o mesmo ocorrendo, evidentemente, com meus irmãos, Pedro e Paulo. Geneticamente não podemos deixar filhos consangüíneos, pois somos estéreis; nosso sobrenome vem de uma ficção estúpida de um cidadão metido a filósofo e a conquistador, que o acaso destinou para ser nosso pai. Este homem nos fez um grande mal para o resto de nossas vidas, tirando o nome do nosso avô de nossos nomes, o que é uma indignidade. Entretanto, para satisfação nossa tivemos informações seguras de que nossos avós,pais do meu pai, eram pessoas íntegras. Quanto ao meu avô, que se chamava Márcio Duarte, em momento algum fora procurado pelo meu pai. Ele, meu avô, como disse, era homem honrado, digno e leitor incansável, além de haver estudado Arquitetura. Apelidaram-no, a propósito, carinhosamente com o nome de grande escritor francês, fato que nos deixou orgulhosos. O perfil desses avós, que me foi passado por pessoas da mais alta credibilidade, muito me alegra: pelo menos ameniza minhas frustrações. No entanto, não me afasta a tristeza de não ter identidade, que é a muleta psicológica e espiritual de todo ser humano que se preza e quer viver melhor e completado perante a Sociedade.

Considero-me um sobrevivente, embora tivéssemos, eu e meus irmãos, uma mãe maravilhosa, a qual amávamos loucamente.

Peço desculpas ao amigo pelo desabafo amargo e para completar, trago-lhe uma notícia assombrosa relativa a meu avô, Márcio Duarte, o qual, não suportando a humilhação e a indignidade de ver seu nome extirpado dos nomes de seus netos, suicidou-se.

“Relativamente a meu pai, deixo de mencionar seu prenome, por questão de higiene mental ...”


Exclusão - Licia Monaco Perin

Logo no início da criação do homem, segundo a Bíblia, houve a primeira exclusão – a expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden.

A partir daí, a exclusão acompanha a raça humana e se “aprimora” cada vez mais, com sutileza suficiente para aniquilar os mais fracos ou desprovidos de armas contra tal ato desafiante para a personalidade humana.

Quando nasci, fui incluída entre os “humanos”.

Crescendo, em fases sucessivas de minha vida, vi-me incluída ou excluída de certos procedimentos ou grupos. Deus nunca me perguntou se eu queria ou não continuar na vidinha acomodada em que vivia no momento: simplesmente eu sentia que era o fim, que eu deveria aceitar isso como definitivo, virar a página e “partir para outra ...” .

Foi assim com minha infância, com meu período escolar, com minha participação nos esportes, com minha profissão.

“Estabilidade?” Só com minha família e meus amigos.

Lógico que, mudanças geram, quase sempre , sofrimento e transtornos em nossas vidas . É tão bom ficar estagnada em “porto seguro”, sentir que não há perigo nos desafios que surgem para nos provocar. Mas, diante disso, penso sempre – “que vida vazia, que chatice, que desperdício de tempo, de vida ...”

Há trinta anos passei por um grande desafio: enfrentar uma mastectomização total, reagir e viver uma nova vida ou entregar-me àquilo que era esperado em casos iguais ao meu – ficar à margem da vida, abandonar meus projetos, encolher-me dentro de mim mesma ou esquecer, minimizar minha exclusão e valorizar cada minuto da sobrevida que me estava sendo oferecida...

Quanto preconceito. Quanta ignorância. Quanta palavra dita sem pensar! Quantas flechas atiradas contra minha auto-estima ...

De tudo isto, colecionei a solidariedade, só me lembrando da amizade de tantos que eu até nem conhecia; a compreensão e apoio da família. Restou-me, também, a certeza de que a exclusão caminha conosco, que o ser humano pode se comprazer em diminuir o seu igual, machucando os que caem e não se levantam, aos que choram e não enxergam que “as nuvens podem encobrir as estrelas, mas que as nuvens passam e as estrelas ficam ...”


O preconceito de uma mãe - Maria Inês Dominiquini

Quando me formei fui trabalhar numa cidadezinha do interior. Trabalhava com crianças especiais e também com as mães.

Um dia uma mãe me disse que na saia com a filha, pois todos tinham preconceitos de criança com síndrome de Down. Inclusive a mãe, como percebi.

Então ela me perguntou, como é criar uma criança especial, sem preconceito.

A comparação que me ocorreu foi a seguinte.

Esperar um bebê é como planejar a fantástica viagem de férias com que você sempre sonhou para a Itália. Você compra um monte de guias e faz planos maravilhosos. O Coliseu, o David de Michelangelo, as gôndolas em Veneza. Você pode aprender frases úteis em italiano. Tudo é uma festa.

Depois de meses de expectativa, finalmente chega o dia da viagem . Malas prontas, você entra no avião e algumas horas depois a aeromoça vem e diz : - Bem vindos à Holanda ...

Holanda? Como assim, Holanda?

Você se espanta : “meu voo era para a Itália. Sonhei a vida inteira em viajar para a Itália”. Mas houve mudança no plano... Aterrissaram na Holanda e este é o seu destino agora.

O importante é que não a levaram a um lugar horrível, desagradável e sujo, cheio de epidemias, fome e doenças. É só um lugar diferente.

Então, você tem que sair, comprar novos guias, aprender uma língua nova e conhecer pessoas que nunca teria conhecido se tivesse ido para a Itália. É só um lugar diferente.O ritmo é mais lento do que o da Itália, a luz menos brilhante, mas depois de estar lá por algum tempo, você toma fôlego, olha em volta e começa a notar que a Holanda tem moinhos, tem tulipas, a Holanda tem até Rembrandt!

Mas, todo mundo que você conhece, foi e voltou da Itália comentando maravilhas do tempo passado lá. Pelo resto da vida você dirá: - era para lá que eu deveria ter ido; era isso que eu tinha planejado!

E a dor do seu coração nunca, nunca mesmo irá embora completamente, porque afinal a perda desse sonho é muito significativa.

Mas, se você passar a vida lamentando o fato de não ter ido para a Itália, talvez não possa descobrir e aproveitar o que existe de tão especial e todas as coisas adoráveis que viu na Holanda.

Depois desse dia, essa mãe entendeu o que é uma filha especial.

Hoje ela é muito feliz, ama a filha e não se envergonha. Aprendeu a lição.




terça-feira, 8 de setembro de 2009

Desconstrução do senso comum I

Ser é perceber, defendia o filósofo naturalista Berkeley. Gosto de pensar que ESCREVER também é PERCEBER. Pois quando escrevemos sobre algo, nos detemos para conhecer melhor o objeto de nossa escritura e, nesse processo, nos conhecemos melhor. Percipere, do latim, significa apoderar-se de algo, conhecer profundamente. Essa ação envolve o sujeito que percebe e o objeto percebido (tomando o mundo como objeto, os sentimentos, os conceitos etc). A proposta do exercício é que olhemos o número 8 e re-elaboremos o seu conceito, o que o número oito evoca para cada um de nós? No contexto do exercício, vamos lembrar da aula sobre criatividade: é importante romper com o pensamento linear, com as respostas prontas e com o lugar comum. É importante lembrar, também, da frase do cineasta Ingmar Bergman: “Meu processo de criação funciona da seguinte forma: eu tomo todas as minhas decisões baseado na intuição, ou seja, eu jogo um dardo na escuridão – isso é intuição. Depois eu mando um exército para recuperá-lo – isso é intelecto.”



A resposta dos oficineiros a esse exercício foi surpreendente, pois ninguém escreveu sobre um tema repetido, provando que há muitas interpretações, muitos sentidos a serem descobertos nas coisas mais simples.






8 - Lícia Mônaco Perin




Linhas perfeitas! O algarismo oito é a junção de dois anéis que se tocam em um único ponto. Voltado para o céu, prenuncia seu propósito de busca ao espaço sideral: 8,8,8,8...
Quando invertemos sua posição, e o colocamos deitado, transmuda-se num símbolo pleno de liberdade: varando o tempo, cortando o espaço, numa disposição louca de tudo vencer, sem nada ser...
8 segundos, 8 minutos, 8 horas, 8 dias, 8 meses, 8 anos...Ah! A infinitude marcada e gravada na verticalidade do horizontal!
Tudo que o homem quer e busca desde que começou a pensar vem inserido nesse algarismo tão simples e tão cheio de segredos não alcançados...









O significado do oito – Antonio Moreira

Vários são os significados do número oito, sendo um dos mais conhecidos o oito em posição horizontal, que é igual ao infinito. Trata-se de número bonito, segundo minha ótica pessoal.
À luz de meu modesto entendimento, passarei a enumerar alguns significados do número oito.
Do latim: octo = 7 + 1
Oitavo: algarismo que exprime o número oito. Cada carta do baralho marcada com oito pontos. Pessoa ou objeto que, numa série, ocupa o oitavo lugar.
Fazer oitos: estar embriagado.
Ou oito ou oitenta: tudo ou nada.
Oito com patrão: barco a remo com oito remadores e um timoneiro.
Oitavas de final: Eliminatória de uma competição, com o fim de classificar oito competidores.
O oito, além de ser um nome bonito, dá origem a outros nomes e expressões, como oitava rima – estrofe de oito versos decassílabos, em que os seis primeiros rimam alternadamente e os dois últimos rimam paralelamente. Os Lusíadas, por exemplo, são versos compostos em oitavas rimas.
Oitavo número, do latim, octavus – ordinal e fracionário, correspondente a oito, Oitava parte de um todo.
Oitenta = cardinal = oito dezenas.
Os cantores nordestinos usavam a oitava como padrão em suas cantigas repentistas.
O oito pode ser representado em infinitas operações financeiras. É um número muito rcvio, de tal forma que pode ser objeto das quatro operações matemáticas.
Se cortamos o meio do oito, teremos o zero.




Eu traço o número oito com dois círculos, que, se divididos ao meio, será apenas um círculo. Círculo me lembra o SOL, que ilumina o dia. Também a lua, que ilumina a noite.
E, que beleza! Me lembra brincadeira de criança: a bola!
No campo das ciências exatas, metade do oito será quatro.

4 - Se olharmos de baixo para cima, parece uma cadeira. Cadeira que me recorda reuniões familiares, trabalho, mobília decorativa, lazer - cadeira de praia, cadeiras no teatro, no cinema...

Trajetórias – Adelaide Dalva Tivelli Garbuio


O oito significa o trajeto de nossa vida. Inicia-se com o nosso nascimento, o nosso crescimento até formarmos uma família.
Então, chegamos ao auge de nossa vivência, com os filhos que, muitas vezes, também já formaram suas famílias, e, nesse momento, a alegria de nossas vidas são os netos.
Ao iniciarmos a segunda metade do oito, o nosso corpo talvez apresente algumas dores, mas o nosso entendimento do que é a vida e a sabedoria para compreendermos os nossos semelhantes é muito maior.
Cada dia compreendemos e aceitamos melhor o caminho escolhido por cada ser humano,e aprendemos a cultivar os verdadeiros valores da vida, reconhecendo que existe um SER superior, que nos guia e nos ilumina.

Um número Forte – Cleudnéia Ap. Gaspar Zavarello

O oito é um número forte e gostoso de grafar. No mês oito nasceu meu pai (31/08/1924); na metade do oito, mês quatro, nasceu a cara metade de meu pai, minha mãe (09/04/1927). Eles ficaram juntos de 1947 a 2007.
Em 1948 eu nasci (03/03/1948) e, no dia 12 (8+4) de abril de 1992 nasceram meus primeiro netos gêmeos, dois meninos que, graças a Deus, já têm 17 (7+1 =8) anos.

Escrevendo sobre o número oito e sua metade, quatro, me dei conta de que muitas vezes estiveram presentes em minha história.

Metade do oito – Lourdes Laurenti Carvalho

Se o que eu observo nessa folha representa o numeral 8, isto é uma quantidade, então, a metade corresponde, logicamente, 4. Mas, nada indica que esse desenho parecido com o número 8 seja realmente o numeral 8.
Pode ser o que eu imaginar; por exemplo, duas argolas cuja metade seria uma argola, ou qualquer outra coisa.
Ouvi dizer que o oito representa o infinito, mas não tenho como conferir, pois nada sei sobre isso. Mas esse diálogo que peguei no ar, aqui mesmo, nessa sala de aula, me deixou confusa, e a coisa se complicou ao infinito. Por quê?
O que é o infinito? Não consigo imaginar o infinito, uma coisa sem começo nem fim. Li, outro dia, o artigo de um cientista, desses que estudam o universo, afirmando que o mesmo está em expansão. Expansão? Mas para onde?
Então, fico pensando em tudo: nosso universo, nossa galáxia, nossa lua, etsrelas, nosso planeta, nossos países, nossas cidades... E nós com os nossos problemas(zinhos). Daí, vem novamente o infinito e esse oito desenhado na folha... Ai! Vou ficar maluca...


sábado, 28 de março de 2009

Histórias dos nomes



Exercício: História do seu nome


Quando nós falamos nos nomes de Goethe, Platão, Picasso, todos se lembraram, pois existe uma memória coletiva, semântica, que permeia o nosso conhecimento sobre esses nomes e as histórias que eles carregam. A proposta do nosso 1º. Exercício da oficina 2009 é que vocês escrevam algumas linhas sobre a história dos seus nomes. Seja verdadeira, seja inventada, seja uma situação vivida e que guarde relação com o nome. Você gostava do seu nome? Você teve apelidos? Escreva sobre isso.




Produção dos alunos - 1a. parte




Porque me chamo Marilisa – Marilisa

Nasci em uma família de Elisas e, para homenageá-las, esse foi o nome inicialmente escolhido, ainda mais por se tratar da primeira filha e neta.
Porém, meu avô, cuja mãe e esposa precocemente falecidas, se chamavam Elisa, pediu para que fosse escolhido outro nome – esse não era auspicioso.
Assim, fui registrada como Marilisa e tudo ficou resolvido... Até a hora do batismo, quando o padre alegou não haver santa com esse nome. Então, fui batizada Maria Elisa.
Não deu para escapar do nome, mas da sina, talvez, porque cá estou eu com meus setenta anos!




Adelaide Dalva é o meu nome – Adelaide Dalva Tivelli Garbuio

Hoje é dia 25 de março de 2009 e vou relembrar minha vida quando criança. Nasci em Analândia, estado de São Paulo. Meus pais eram de família italiana. Meu pai se chamava Alfredo Tivelli e minha mãe Filomena Somaio Tivelli.
Morávamos numa chácara onde viviam os meus avós. Éramos 10 irmãos: 4 homens e seis mulheres. Benedito, Valdemar, Deoclides, Antonio, Marietta, Celeste, Antonietta, Helena e Ordália.
Foi o meu pai que nos registrou e escolheu os nossos nomes. Ele me chamou pelo nome de Adelaide Dalva, porque achava muito bonito.
Éramos uma família bem grande e contávamos com o carinho de minha mãe, que fazia tudo por nós. Acordava cedo e ia tirar o leite da vaquinha e, quando acordávamos, já estava tudo pronto, inclusive o pão, feito por ela também.
Minha mãe lavava toda a roupa e passava com o ferro de brasa, e todos iam para a escola arrumadinhos.
Não sei se pude passar um pouco de minha vida e de minha vivência. Hoje, tenho prazer de vir à escola da terceira idade, e ter a grata felicidade de perceber que todos nós caminhamos na vida e, atualmente, podemos compartilhar nossas histórias uns com os outros.
Não sabemos tanto, mas vivemos uma vida digna; e ainda estamos em busca de algo que a escola da terceira idade nos proporciona, para continuarmos a viver dignamente, com amor. Junto às pessoas, relembramos um pouco do que vivemos em nossos dias. Agradecemos a Deus que nos dá a capacidade de encontrar pessoas que nos acolhem com carinho, os colegas da faculdade, pessoas queridas que alegram o nosso dia a dia.

História de meu próprio nome – Antonia Helena Dragunas

Já pensei muitas vezes: por que tenho este nome?
Hoje, considero um nome forte não muito comum. Tenho setenta anos e, há pouco tempo, descobri que a atriz Cristiana Oliveira tem uma filha com o mesmo nome.
Fui registrada como Antonia Helena Mattos, mas depois de casa, tirei o Mattos e coloquei o sobrenome do meu marido – Dragunas.
Nunca pensei que um dia pudesse escrever sobre esse assunto. Está sendo muito interessante, pois só assim descobri o meu verdadeiro nome.
Agora, vou enumerar todos os apelidos que tenho: Vó Lena, Leninha, Lelenoca, Lê, Lelena, e etc.
Estou muito feliz por ter a oportunidade de escrever sobre o meu nome, pois só assim falei da benção que meus pais carinhosamente deixaram. Obrigada, mamãe! Obrigada, papai!


Escrever sobre o meu nome – Cleudinéia Ap. Gaspar Zavarello

Escrever sobre o meu nome me fez pensar que fiquei tantos anos com meus pais e não me recordo de perguntar a eles o porquê de me darem esse nome. Hoje, com saudade, não tenho mais como saber.
Mas, tem algo sobre o meu nome e também o nome do meu irmão que vou contar.
Meus pais contavam muito do meu nome, ficavam bravos quando as pessoas me chamavam pelo apelido – Néia. Quando eu tinha cinco anos, nasceu meu irmão e eles não colocaram o nome Cleudinei, para evitar que o apelidassem - Nei.
Eles o chamaram Cleudicir, achando impossível que fossem apelidá-lo de Cir. Mas... Foi justamente o que aconteceu, ficou sendo Cir.
Esse fato era motivo de tristeza para os meus pais, pois eles gostavam muito dos nomes que deram aos filhos: Cleudinéia e Cleudicir.
Sempre gostei do meu nome e também do apelido. Ao contrário do meu irmão, que, sempre que tem a oportunidade de dizer seu nome entre amigos, usa o sobrenome – Gaspar, nunca usa o Cleudicir ou Cir.



Meu nome – Aurora Ferreira Rodrigues

Setembro chegou e, com ele, a tão esperada primavera, trazendo consigo as flores para enfeitarem nossos vasos e jardins.
Meus pais esperavam o meu nascimento, trocando idéias sobre o meu nome.
As 03h30minh da manhã, eu cheguei. O raiar do dia recebe o nome de aurora, e eu recebi esse nome – Aurora, com todo carinho.
Quando papai estava em casa e eu acordava, ele dizia para a mamãe: - Rosa, o dia está raiando! E iam me buscar, contentes.
Não conheço nenhuma escritora importante com o meu nome, mas o admiro até hoje.


Porque meu nome é Silvia – Silvia Ap. Cristofoletti Galvani

À noite, quando o sono não chega, me entretenho em reconstruir de memória a antiga casa onde morávamos. Entro em cada cômodo. Na cozinha espaçosa, sentadas ao redor da mesa grande, estão minhas primas e eu, ouvindo as histórias contadas pela Madrinha – era assim que nossa avó gostava de ser chamada.
Para surpresa nossa, nesse dia vovó conta, entre lágrimas, uma passagem bem triste de usa vida. Aos vinte e sete anos de idade, e esperando o novo filho, ficou viúva.
Ficou com as três meninas e o Nenê, pois os demais meninos foram criados, até a idade adulta, pelos tios. Como não tinha renda nenhuma, foi trabalhar para uma tradicional família, aqui da cidade.
Ali permaneceu até que Dona Sílvya, a filha mais velha, casando-se, levou-a consigo para São Paulo. Durante muitos anos cozinhou e lavou roupas para esta bondosa senhora, por quem vovó tinha verdadeira admiração.
Nesse dia, descobri por que meu nome é Silvia. Não só o nome, mas gostaria, também, de ter herdado as características dessas duas mulheres: fibra, paixão pela vida e vontade de assumir tudo o que contribua para a felicidade e bem-estar de todos.
Pesquisando sobre a origem do nome Sílvya ou Silvia, descobri que vêm do Latim e que significa “mulher da Selva, da floresta”. É, ainda, marca da prosperidade e revela as demais características acima citadas.


Porque me chamo Antônio – Antônio Moreira

A grande quantidade de Antônios existente no Brasil se deve, basicamente, à simpatia e à sonoridade do nome propriamente dito.
Tão evidente é sua aceitação que é comum em quase todas as famílias despontarem Antônios, muitos de renome, outros, talvez a maioria, como eu, são pessoas simples.
Em minha família, lado paterno, harmonioso, silencioso, pacífico e religioso, os Antônios surgem a todo instante. No eu caso, vem do meu tio Antônio Alves Moreira, fato que muito me honra, pela figura humana maravilhosa que ele foi.
É provável que, pelo sentimento de religiosidade que dominava meus avós, Emília e Faustino, ela um tanto espanhola, ele meio português, os Antônios tenham origem no santo.
O acolhimento desse nome é tão caloroso que, além dos Antônios ilustres de que falei, vários municípios são detentores de tal apelido, além da “Lagoa Antônio”, que fica às margens do Rio Madeira. Vejamos alguns municípios: Antônio Almeida (Piauí); Antônio Cardoso (rio de Janeiro); Antônio Carlos (minas Gerais e Santa Catarina); Antônio Gonçalves (Bahia); Antônio João (Mato Grosso do Sul); Antônio Martins (Rio Grande do Norte). E porque não lembrar, também, do aeroporto Antônio Carlos Jobim, no Rio de Janeiro?
Nos últimos anos não tem surgido Antônios na família, que anda carente de Antônio. Por esse motivo, minha neta mais nova chama-se Antônia.
Concluindo, eu afirmo o que acho óbvio: meu nome não é o mais bonito do universo, mas me sinto muito bem com ele.


Meu nome – Lícia Monaco Perin

Em 1927, aportava em Rio Claro uma jovem, Lícia Capri Pignatari, que, vinda da Itália, conhecera em São Paulo aquele com quem se casaria e seria o amor de sua vida – Fortunato Pignataro. Ele, de tradicional família de italianos, radicados em nossa cidade.
Professora, socióloga, inteligência ímpar, essa bela mulher, protótipo da ‘matrona’ italiana, iria fazer parte da história de Rio Claro. Para mim, sobretudo, ela teve um significado especial: recebi dela a herança de seu nome – Lícia.
Chegando a Rio Claro, D. Lícia foi logo apresentada às famílias italianas que faziam parte do círculo de amizades de seu jovem esposo. Assim, eles frequentavam com constância a casa dos meus avós maternos (os Giorgi) e paternos (os Monaco).
Fui a primeira filha do casal Ondina Giorgi e Francisco Monaco. Minha mãe se casou muito jovem, aos dezoito anos e, aos vinte, eu nascia. Meu pai tinha vinte e oito anos ao se casar e, viúvo, tinha dois filhos, meus irmãos Célia e Francisco Octávio. Quando eu estava para nascer, em abril de 1930, como era costume na época, minha mãe foi para a casa de sua mãe, a nona Rosa, e lá se deu o parto.
Família grande, a de minha mãe, logo começaram as sugestões para o nome do novo bebê. Sem muita liberdade com meu pai, pelas circunstâncias de um casamento imposto pelas duas famílias, minha mãe ainda não se sentia à vontade com o marido. Após alguns dias de meu nascimento, minha mãe indagou de meu pai se não era hora de registrar a criança. Foi quando meu pai respondeu-lhe: - Já a registrei. Estava havendo muitos palpites... Só então meu pai disse o meu nome – Lícia. Meu pai foi sempre um homem determinado, educado e grande admirador da arte e cultura.
Tive a alegria de conviver por muitos anos com D. Lícia. Ela e seu marido foram padrinhos de casamento de minha mãe. Encontrava-a constantemente na casa dos Monaco. Menina, ainda, achava interessante que ela tivesse o meu nome (e não percebia que era o contrário). Sua conversa era sempre elevada e proveitosa. Ao mesmo tempo em que lecionava muitas disciplinas, em inúmeras escolas, aprimorava os seus conhecimentos em cursos cada vez mais avançados. Quando eu já cursava Odontologia em Araraquara, ela lecionava nessa cidade. Às sextas-feiras tomávamos o mesmo trem e, quem chegasse primeiro, guardava lugar para a outra. Duas horas de conversas fecundas e lições de vida...
Minha tia Hermínia contou-me um fato que desejo registrar. Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), D. Lícia, por ser italiana, foi denunciada e perseguida. Acabou indo parar numa cadeia feminina, convivendo na mesma cela com presas comuns. Tal era o seu grau de educação e respeito humano que fez amizade com as companheiras da cela, conseguindo alfabetizá-las. Muitos anos depois, D. Lícia recebia sempre a visita de algumas delas, em Rio Claro.
Tive sempre muito orgulho em ter um nome advindo de uma pessoa como D. Lícia, cujos atributos a destacavam como uma grande mulher, e procurei fazer disso um espelho para minha vida.


Por que me foi designado este nome - Rosemarie Brunhild Grassmann Bóbbo

Na pia batismal recebi o nome de: Rosemarie Brunhild Grassmann, Bóbbo só veio em 1958.
ROSEMARIE: conforme contou mamãe, ela gemia sobre a cama, esperando a cada momento o meu nascimento, enquanto o papai e a parteira falavam de política, sentados ao lado de uma mesinha perto da janela, por onde se avistava uma belíssima nogueira, lindamente florida.
Entre uma dor e outra, mamãe pensava: - Se for menino, se chamará Alexander, mas e se for menina?
Na parede, ao lado da cama, havia um belo quadro, representando rosas, que mamãe havia pintado; então, ela pensou no nome de Rosemarie.
Pouco antes do almoço, Rosemarie deu seu primeiro chorinho, era 16 de maio de 1933.
BRUNHILD: Recebi esse nome em honra à minha tia, irmã de mamãe. Meus avós eram apreciadores de óperas e Brunhild é uma personagem da famosa ópera de ‘As Valquírias’, de Richard Wagner.
GRASSMANN: Na antiguidade, os nomes das famílias eram dados, na Europa, pelas profissões e preferências das próprias famílias. Grassmann significa homem-grama, que significa apreciado e respeitador da ecologia, da natureza.
Em 1958, casei-me com Waldemar Bóbbo, quando tive a honra de acrescentar esse sobrenome ao meu nome de solteira.
No entanto, na eternidade, como nos informa a Bíblia Sagrada, esse nome será mudado:
“Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às Igrejas: Ao vencedor dar-lhe-ei do maná escondido, bem como lhe darei uma pedrinha branca e, sobre essa pedrinha, escrito um nome novo, o qual ninguém conhece, exceto aquele que o recebe”. Alguém poderá perguntar: - Mas você acredita nisso? E eu responderei, simplesmente: - É lógico que eu acredito!
Se retrucarem: - Mas porque você acredita nisso? Responderei: - Simplesmente porque Deus disse. Na Bíblia toda encontramos a frase “Assim diz o Senhor” 1.500 vezes. 150 vezes só no livro do profeta Isaías.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Exercícios de escrita sensorial


A oficina desvendou os vínculos entre sensações, sentimentos e escritura. Em seguida, a proposta do exercício: fechar os olhos e se imaginar degustando um de seus pratos preferidos. Comece imaginando o cheiro que impregna a cozinha enquanto a comida está sendo feita, o aroma de cada ingrediente, o sabor específico de cada um. Imagine-se levando cada garfada à boca, a temperatura da comida, as lembranças que evoca. Imagine a pessoa que está servindo a mesa, quem está presente, o motivo pelo qual esse prato foi feito, especialmente. Está comemorando alguma data? É uma ocasião especial?
Escreva sobre o que foi proposto, sem preocupar-se com o gênero: se é poesia, se é um conto ou crônica. Apenas descreva as suas sensações, transforme as lembranças numa invenção, reencontre as suas palavras.

Não existe obrigatoriedade na realização das tarefas, mas os alunos têm demonstrado przaer em participar, partilhar o seus textos, transformando a oficina numa experiência bastante enriquecedora. Esse exercício foi realizado por onze alunos.


Almoço aos domingos - Aurora Ferreira Rodrigues

Almoço aos domingos. Mas hoje é especial, pois é aniversário de meu pai.
Chegada dos irmãos com a família, e o aroma é convidativo. É o bolinho de bacalhau feito pela mamãe, e logicamente queremos prová-lo.
As crianças no quintal, brincando até serem chamadas para o almoço. Mamãe serve os bolinhos de bacalhau e o Bacalhau a Gomes de Sá, que é uma delícia.
Papai nos traz o vinho português (feito pelas minhas tias, em Portugal), engarrafados por nós, ao som de músicas portuguesas e cantadas por meu pai... Que saudade!
Após o almoço, frutas portuguesas e, à tarde, o parabéns a ele, acompanhado de um belo bolo.
Abraços. Desejos de feliz semana a todos e até o próximo domingo.
Que Deus os acompanhe!


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Sopa preta e sopa branca - Maria Inês Mascarin Filier

Ouço o burburinho de pessoas falando, uns estão entrando; outros, saindo. O barulho vem da loja, vem do quintal e, por falar no quintal, ouço as galinhas cocoricando, o galo0 cantando, passarinhos gorjeando, cachorro latindo, crianças brincando, correndo.
Saio da loja e entro na cozinha. Lá está ela, a nona, no fogão de lenha, preparando o almoço para todos nós.
O caldeirão maior é o do feijão e, justo nessa hora, ela está fritando o tempero para colocar no caldeirão, o cheiro é delicioso! Alho e cebola, que, quando ficam moreninhos, ela joga no caldeirão, acrescenta o sal e aquilo recende pela casa toda, pelo quintal, e até os fregueses da loja sabem que a nona está temperando a comida.
- Nona! Dá um pedaço de pão molhado no feijão?
E ela coloca aquele naco de pão num garfo, afunda no caldeirão e me dá. Saio feliz dali, acrescento mais um pouco de sal e vou comendo aquilo como se fosse um manjar dos deuses.
A nona faz bastante comida, mas também, pudera! Somos mais ou menos umas vinte e tantas pessoas que almoçam, e jantam juntas, todos os dias. Somos irmãos, primos, tios, tias, pais, e sempre chega uma pessoa ou outra para fazer parte deste nosso ritual.
Sabe o feijão que sobra do almoço? É transformado, à tarde, numa deliciosa sopa, que nós carinhosamente chamamos de ‘sopa preta’; porque a outra, de legumes, chamamos de ‘sopa branca’.

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O cheiro da torta de maça - Rosemarie B. Grassmanm Bóbbo

Escrevia-se o ano de 1938. Vejo uma enorme cozinha. E, nela, reinando, Emma – prata de nossa casa em Liebenfelde – considerada membro da família, pois ela já vira meu pai nascer, em 1898.
Era um belo sábado de maio, tudo estava florido e a natureza se recuperava, célere, de um inverno muito frio e com muita neve.
Mamãe, como esposa de pastor luterano, reuniria, naquela tarde, as esposas dos presbíteros para um estudo bíblico, oração e cantos de louvor a Deus. Meu tio, também pastor, acompanhava mamãe ao violino, enquanto ela tocava piano.
Na cozinha, Emma preparava deliciosas tortas e, entre elas, minha querida torta de maça. Pois, antes que as senhoras se retirassem, havia sempre uma meia hora de kaffee und kuchen (café com bolo).
Mas... Criança não tomaria parte nisso. Era o modo de educar os filhos, naquela época, e, agora, concordo plenamente. Portanto, eu comeria o que sobrasse.
A certa altura, ouvindo as senhoras conversarem animadamente na sala de jantar, animei-me a dar uma espiadinha através da porta levemente entreaberta. A ver a quantas ia a vida de minha querida torta de maça.
E, qual não foi meu pavor, ao verificar que uma das senhoras apanhava a espátula recostada ao prato que continha, ou, melhor dizendo, havia contido a torta de maça, querendo servir-se do último pedaço (essa espátula, nós a usamos até hoje).
Não consegui conter-me e gritei, apavorada:
- Mutti, mutti! Sie nimmt sich auch das letzte stuckhen!
- Mamãe, mamãe! Ela está se servindo do último pedaço!
Primeiro, um susto das senhoras! Depois, mamãe dando explicações. E, depois, todos rindo, e a senhora me levando até à porta, aonde eu ainda continuava em pé, o prato com o último pedaço de torta de maça.
É minha recordação mais remota referente à comida. Mais degustação do que cheiro.

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Doces lembranças - Silvia Ap. Cristofoletti Galvani

Só agora, tantos anos passados, tento passar para o papel as lembranças de momentos marcantes que vivi quando adolescente.
Não havia muro ou cerca separando as casas de meus pais, de meus avós e tios. Um espaçoso rancho unia as duas residências. Era nele que, todas as tardes, as mulheres estavam sempre ocupadas com a costura, com ‘passar as roupas’, ou fazendo pequenos consertos. Exigiam, ainda, que as ‘meninas’ ficassem por perto, para que aprendessem as tarefas do dia-a-dia.
Em dias chuvosos, gostávamos de ver as fotos da família, que vovó tão bem guardava numa caixa de madeira pintada com motivo barroco. Era divertido olharmos os retratos dos antepassados, enquanto sentíamos o aroma do café passado pelo coador de pano e dos deliciosos bolinhos salpicados com açúcar, canela e muito amor.
Saboreávamos essas iguarias, vendo a chuva cair mansamente nas folhagens, bem à nossa frente, encostadinhas no muro do vizinho.
Hoje, ao comermos alguma guloseima feita em casa, minha filha Andréia diz ter o ‘gosto do armário da avó Vitória’. Comparação, esta, que até agora não soube explicar. Mas, os bolinhos de minha avó tinham gosto de saudade!

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Aconchego - Célia Maria Cestaro Christofoletti

As tardes de outono são deliciosas. O clima ameno, o céu de um azul límpido, quase sempre sem nuvens, e um pôr do sol resplandecente.
Curto as tardes de outono, mas me reporto aos meus tempos de menina, quando era mais tranquilo andar pelas ruas e usufruir toda beleza, toda paz do cair da tarde.
E, no meu passeio, nessas tardes, era possível sentir os odores da preparação do jantar que vinham do interior das casas. Minha imaginação chegava ao recôndito dessas moradias e sentia a vida, ali, acontecendo.
Algumas vezes, passei pelo pequeno portão, sem travas, da casa de minha avó. Atravessava o corredor e chegava até à cozinha. À mesa, fumegante e cheirosa, uma terrina de sopa, lingüiça frita e muito pão, como manda a tradição da família italiana.
Era bom juntar-me aos meus tios e primos ao redor daquela mesa! Sentia-me orgulhosa e feliz por estar entre os meus. E o que ficou na minha memória não foi o sabor dessa refeição, mas delícia do momento, o amor traduzido num prato de sopa quentinha, suculenta, generosa.
Lembro-me da felicidade de minha nona. Da mesma forma, na casa de meus pais, a felicidade de minha mãe ao ter os seus reunidos para o jantar, depois do trabalho, da escola, enfim, dos afazeres que, findos, nos levam de volta para casa ao término de mais um dia.
Hoje, ao passarmos pelas ruas, não é mais possível sentir os odores da preparação do jantar no interior das residências e, talvez, a reunião em volta de uma mesa fique restrita aos finais de semana. Os rituais são outros, mas a força do amor permanece.
Estamos sempre voltando, ou esperando a volta daqueles que amamos. E o aconchego tem cheiro, cor, sabor, calor...

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Galinha ao molho pardo regado ao amor de Emília e Faustino -

Antonio Moreira

Inicialmente, esclareço: não tenho qualquer habilidade gastronômica. Entretanto, sempre apreciei um prato bem temperado, feito por amador, profissional, ou em nossa casa.
Notadamente, se a iniciativa da comidinha partia, anos atrás, da minha avó Emília, alma gêmea de Faustino, casal dos mais lindos que habitaram a Terra dos Homens.
Quando criança, eu, meus pais e irmãos, íamos, geralmente às quartas-feiras, a Bonsucesso e a Santa Maria, saborear a gostosa e inesquecível ‘Galinha o molho pardo’, cujo tempero tinha um toque espanhol,pois Emília era descendente da bela e querida nação de Carmem de Bizet e Cervantes.
Para complementar o prato delicioso, de que todos gostávamos, minha avó mandava fazer um feijão superincrementado, eu diria requintado, apesar da simplicidade que sempre nos caracterizou, além do cuscuz de milho (puro), branco ou amarelo. Isto, sem deixar de providenciar, paralelamente, um franguinho igualmente gostoso, tudo ao som do barulhinho das crianças.
Bonsucesso e Santa Maria, fazendinhas vicinais de nossa propriedade, tinham como pano de fundo o Morro do Bonsucesso, que ornava de rara beleza a região que encanta a todos, inclusive a Glauber Rocha, que lá rodou um deus seus filmes – “Terra de Sangue”.
Aliados àqueles encontros festivos e santos, havia os elementos maiores: Deus e o amor de Faustino por Emília, objeto de comentários em toda a região.
A ‘Galinha ao molho pardo’, comida preferida de toda a família - Moreira, Sérgio, Ferreira – era uma festa ao nosso paladar e ao nosso espírito. Eis que também tinha, como condimentos maiores: amor, harmonia, afeto e carinho indescritíveis. E Deus, sempre generoso com Emília e Faustino, concedeu-lhes, além da magia de um amor transbordante, uma existência quase centenária!

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Encontro e despedida - Geni Deolinda Bizzo

Finalmente, chegou o tão esperado momento. Luiz está radiante. Adeus escola, livros, discussões, leis, caminhos que se tornaram maiores e mais cheios de obstáculos durante esses trinta anos. Cada palmo de seu chão passa na tela mental como em um flashback. Árvores frondosas e floridas deram lugar aos prédios. Casas antigas foram tombadas – literalmente – para dar lugar a gigantes e imponentes viadutos. A tão sonhada aposentadoria chegou. E, com ela, sentimentos confusos do dever cumprido, cansaço e um vazio enorme com a expectativa de novos dias.
Bem, mas não é momento para saudosismos ou tristezas, mas para comemorações. Meu querido e inseparável amigo Luiz me abraça efusivamente e me pede para escolher um local aconchegante para brindarmos esse momento especial. Não tenho dúvidas. Escolho o Yokohama, restaurante japonês onde tantas vezes estivemos para trocar idéias e fazer confidências.
Mas hoje será diferente. O sentimento de alívio, aliado à saudade que sentiremos, promete uma noite inesquecível. Quero sentir cada segundo. Fechando os olhos, vejo-me estacionando o carro sob a luz das lanternas coloridas que iluminam o jardim entre as pedras que servem de esconderijo para as carpas – parecem-me – gigantes para espaço tão pequeno.
Na chegada, o ar fresco de aroma agradável impregna nossa alma. Ao atravessarmos a pequena ponte em arcos e cercada de bonsais, percebo que o perfume da vegetação verdinha toma conta de mim e me deixo levar pela emoção.
Elegantemente vestidos para a ocasião, fomos recebidos por uma jovenzinha – eu diria uma gueixa – que nos acomodou num ambiente aconchegante: meia luz, meia voz, música suave, gestos delicados, sintonia perfeita que o momento pedia.
Atmosfera perfumada. Toalhinha quente em um saquinho para a higiene das mãos. Viajo. Vejo-me levada por fortes samurais para uma aldeia cercada de colinas verdejantes onde, no tatame improvisado, tenho aula de artes marciais. A leveza dos gestos, o respeito ao adversário, as regras, a disciplina rígida dispensam o conhecimento do idioma.
Respiro fundo. Olho para meu amigo, que tem os olhos marejados. Emoção... A separação é inevitável e, por alguns segundos que parecem eternidade, ficamos sem palavras, só observando cada detalhe da mesa cuidadosamente preparada. Vaso enfeitado com flores e frutas combinando com as louças. Guirlandas envolvendo os copos, pétalas de rosas sobre a toalha vermelha e branca...
Meu devaneio é interrompido pela gentil garota que nos traz o cardápio. Aceito a sugestão do meu amigo. Não era o mais importante naquele momento. Para entrada, sushi e sashimi não são novidades para nós, acostumados no trato com hashis, wasabis e shoyu.
No antegozo da espera, vislumbro as mãos ágeis e delicadas no trato com os alimentos do sushiman, de rapi muito limpo e com a faixa envolvendo a cabeça. Tudo especial: os apetrechos de cozinha, o ritual na confecção de cada prato. A concentração no trabalho esconde, com certeza, a saudade da terra distante, os familiares nunca mais vistos, coração dividido numa mescla de sentimentos que o amor à nova pátria e a miscigenação favorecem. A aproximação da garota com jeito de gueixa me tira da cozinha. Vestida a caráter, quimono colorido em tons de vermelho e branco, cor preferida dos orientais, o gracioso coque preso com grandes grampos, uma bela aparição...
Como é um dia muito especial e com sabor de despedida, curto cada segundo. Percebo cada detalhe e não me escapa o olhar triste da garota que, com um sorriso contido, parece esconder um sentimento que teima em se mostrar. É um olhar distante... Será um amor não correspondido? Alguém cuja espera se faz longa demais? Talvez seja paranóia minha numa transferência de um sentimento que é só meu... Lentamente nos servimos, medindo cada gesto. Sentindo o aroma gostoso dos pratos cuidadosamente decorados.
Pouco nos falamos, não há necessidade. Degustamos os alimentos em silêncio, envolvidos pela atmosfera reinante. Como prato principal, peixe guarnecido com legumes coloridos. O sabor característico, a leveza dos alimentos, a morosidade no trato com os hashis favorecem a concentração e a harmonia que o ambiente e a ocasião propiciam. Sensações confusas. O tempo passa vagarosamente... Ou corre demais? Há um misto de alegria e saudade antecipadas.
O chá verde digestivo de frutas e flores completa a noite. Tudo perfeito, não fosse a lágrima que teima em se fazer presente, mesmo sem ser convidada.

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Aromas na lembrança - Adelaide Dalva Tivelli Garbuio

Posso, com carinho, relembrar as coisas que minha mãe fazia aos sábados. A coisa de que mais gostávamos, as roscas que, depois de assadas, eram pinceladas com um pouco de açúcar mascavo.
No almoço, gostávamos de pastéis. Aos domingos, mamãe fazia o macarrão com tomates picados. Era muito importante que todos estivessem à mesa. Meu pai sempre agradecia a comida e meus irmãos respeitosos, jamais sentavam-se para as refeições portando chapéus ou sem as camisas, pois a mesa era abençoada e todos tinham amor aos alimentos.
Não tínhamos refrigerantes, as refeições eram acompanhadas da boa água do poço, que ficava no quintal.
Lembro-me de minha mãe cantando: “... a água a cantar: chuá, chuá, o rio a correr, chue, chue...”. O meu irmão, Waldemar, tocava violão. Fomos uma família feliz. Meu pai se chamava Alfredo Tivelli e, minha mãe, Filomena Somaio.

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Canarícules - Marinalda Codo

Fechar os olhos... Como se precisasse, para lembrar algo tão agradável. A recordação corre solta pela minha mente e começo a me lembrar da história dos famosos canarícules que mamãe fazia.
Ainda criança, minha única preocupação era a de comê-los, apenas isso, sem me importar com o seu significado ou com o trabalho que dava para fazê-los.
E como era gostoso simplesmente comer, comer e comer, pois eram feitos em grande quantidade.
Com o passar do tempo, mamãe começou a convidar a sua irmã mais velha para vir em casa e ajudá-la no preparo dos canarícules. A titia vinha e as duas passavam a tarde toda a prepará-los e eu, é claro, só chegava na hora de comer, comer e comer.
O tempo passou mais um pouco, e mamãe foi para o céu, com suas mãozinhas de fada e com todos os seus conhecimentos. E agora? Comer, comer e comer o quê?
Veio, então, uma grande idéia; convidei a titia, já bem velhinha, algumas amigas e uma prima também, para que juntas pudéssemos fazer o tal canarícules.
Titia apenas nos orientava, sentadinha na ponta da mesa. Nós colocávamos a mão na massa. Desta vez, eu fui anotando passo a passo a minuciosa confecção dos famosos canarícules.
Tão grande foi a minha surpresa que, modéstia a parte, me sai muito bem e, assim, aprendi a herança da família com titia, que, com suas mãos hábeis, nos dizia qual era o ponto da massa, como fritar e colocar no mel, tudo num ambiente da mais pura alegria e descontração.
Foi quando passei a entender o verdadeiro significado que tinha fazer os canarícules. A união, o entrosamento, a alegria e a satisfação quando, ao dar um pouco para alguns poucos vizinhos, poder dizer: “fui eu quem fiz”... E não apenas comer, comer e comer.
O tempo foi passando e, por mais alguns anos – dois ou três – eu reunia essas pessoas em minha casa para fazermos os canarícules, sempre no mesmo ambiente alegre e divertido, no qual eu podia ver os olhinhos da titia brilharem de felicidade e, dessa forma, ela me passou a herança da família.
Hoje, já sem titia, ao fechar os olhos e me lembrar de todos aqueles momentos e colocar este relato no papel, eu me lembro sim, claramente, de tudo. Mas, o que ficou, o sabor que tem, eu só posso dizer que tem o sabor de uma grande saudade, com temperos de muita paz, alegria e agradecimento por ter tido a oportunidade de aprender com titia o que não aprendi com mamãe.
Agora, fazer novamente, reunir os amigos, a minha prima, mas sem a titia, confesso que ainda não tive coragem.

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Lembranças saborosas - Iandara Palmero

O que me faz lembrar de algum fato envolvendo comida e sabores, até hoje, é uma grande lembrança dos domingos de minha mocidade. É gosto, cheiro e sabor de macarronada! O molho feito com tomate e pedaços de carne, o frango assado e a maionese.
Lembro-me, também, dos dias de chuva, nos quais minha mãe fazia questão que tomássemos café da tarde com bolinho de chuva e muitas outras coisas que só minha mãe – que foi uma mãe amiga, companheira e confidente – é que me faz lembrar, com muito amor, carinho e saudade.
Mas é uma saudade gostosa, feliz, por ter tido esta oportunidade em minha vida.