Certificado

Certificado
Uma grande vitória poder divulgar o nosso projeto!
A OFICINA DE LEITURA E CRIAÇÃO LITERÁRIA
3A. IDADE CLARETIANAS FOI UM DOS PROJETOS SELECIONADOS PARA APRESENTAÇÃO NO III FÓRUM DO PLANO NACIONAL DO LIVRO E DA LEITURA E NO III SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE BIBLIOTECAS, EM AGOSTO DE 2010.
Mostrando postagens com marcador Geni Bizzo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Geni Bizzo. Mostrar todas as postagens

sábado, 29 de outubro de 2011

Oficina Literária

Texto da Geni Bizzo



Na penumbra da sala
Faíscas cintilantes explodem nos olhares atentos
Silencio total na expectativa
o raciocínio é lento
 Mas o sorriso é farto evidenciando a vaidade encoberta

O lirismo embala os sonhos
A emoção domina a cena
Sandra incentiva...
Soltem as amarras e voem
Nas asas do sonho real de Clarices, Coras e Adélias

O varão sorri de soslaio do alto de sua cátedra
pois poeta é,
Tem brilho próprio que a humildade esconde.

Pobres de nós
Haja neurônios
Os meus estão já não sei onde.




Rezas e Benzimentos

Texto de Geni Bizzo



Coisas da pobreza, da crença ou da fé,
falta de grana ou informação,
a medicina caseira curava até bicho de pé.
As simpatias e as rezas, usadas com emoção,
 passavam, com certeza, de geração em geração.
Se minha memória não falha, quero deixar registrado,
 embora nos dias de hoje
vão achar muito engraçado.

Emociona-me falar sobre isso,
acho muito bom reviver.
E  sem parcimônia ou compromisso,
passo receitas do bem-querer.
Acompanhando os rastros dos pés da criança na areia,
 que  só andava segura pela mão,
um ramo de cipó são joão por um machado era cortado,
cortava também o medo na marquinha  do pé no chão.

Dor de cabeça? tonteira?
 três brasas acesas num copo com água era entornado
 num pano sobre a moleira;
dizia-se que era sol e num instante ficava curado,
voltando o infante  para a  brincadeira.
Espinhela caída, vento virado? Media-se com barbante
 da cabeça à ponta do dedão
 e depois de três Aves-Marias, a dor sumia num instante,
acalmando o chorão.

Erva santa maria ou mentruz, há quem não acredita,
mas dentro de um certo tempo, tinham fim os parasitas.
Folha de beladona ou saião, quando aquecida, curava inflamação;
sua flor, linda e branquinha, deixava a pele lisinha.
Capim santo,  erva cidreira ou chá de estrada,  
 com um chazinho a criança era acalmada.
Três voltas ao redor da casa, quando a criança nascia,
no colo da mãe ou das tias, evitava o mal de sete dias.
Folhinha de mamona novinha, com azeite aquecido,
cobria o enorme furúnculo,  que não mais ficava doído.

 Para queimadura? cataplasma de vela derretida e fria,
demorava um pouco, mas era certa a cura um dia.
Gripe forte? peito cheio? com emplastro de fubá cozido e quentinho,
respirava  melhor o menininho.
Três galhinhos de arruda debaixo do travesseiro
levava embora o quebranto da criança linda e olhar matreiro
 que, por causa do mal olhado,
havia chorado o dia inteiro.


Com folhas de fumo curtidas na água canforada
banhava-se o ferimento adquirido todo dia;
picadas de insetos e arranhões
tinham sua assepsia.
Hortelã, poejo, marcelinha,
erva doce, quebra-pedra, manjericão,
arranha-gato, carqueja ou melissa
eram usados em banhos, macerados ou infusão.

É crendice, dizem alguns, bruxaria acham outros,   
mas a mãe pobre  sempre buscava  solução.
No seu quintal ou redondeza,  nativas ou cultivadas,
 achava ervas de montão.
Com fé  sem perder a alegria,
via crescer sua cria.
Crescemos fortes e sem trauma,
com algumas cicatrizes.
Mas reverenciamos dona Pina
e bendizemos nossas raízes.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Viagem sensorial

Texto de Geni Bizzo

  Cai a noite tingindo de negro o espaço. Deitados, observamos o teto, rezando para que os olhos se acostumem à escuridão e nos permitam observar as réstias de luz produzidas pela lua crescente através das pequenas frestas da casa de madeira com telhado sem forro. O pisca-pisca das estrelas-vagalumes (ou dos vagalumes-estrelas) nos diverte e nos leva a imaginar viagens fantásticas no rabo de um cometa gigante.
Nossa mãe apaga a luz bruxuleante da lamparina a querosene para que possamos dormir. E ralha conosco, quando rimos das nossas brincadeiras ou damos abafados gritos com medo da assombração que, temos certeza, ronda a casa. São assim nossas lindas noites e, até que o sono nos domine, aproveitamos o tempo, que nos parece uma eternidade, num simplesmente fazer nada. 
Nas noites chuvosas, nos agarramos com medo do clarão dos relâmpagos que riscam o céu e tapamos os ouvidos aguardando o ribombar dos trovões. Os galhos que roçam os telhados são para nós passos de bruxas (ou de uma mula sem cabeça que vem para nos assombrar). O que nos distrai nesses momentos é o coaxar dos sapos que fazem festas, comemorando a água em abundância, fundamental para eles.
Amanhece o dia. Felizes, observamos atentos a relva molhada, sentindo  o cheiro doce da terra lavada e a beleza das pétalas brancas e perfumadas do sabugueiro gigante que forram o chão, emoldurando o pequeno quintal, nosso recanto feliz. Recolhemos as mangas derrubadas pela ventania e nos deliciamos ali mesmo, arrancando com os dentes as cascas que envolvem a saborosa fruta. Nova manhã, sol brilhando, e não nos lembramos mais da tormenta.
Os anos passam.
A pequena casa, agora de tijolos, possui luz elétrica e água encanada. A rua sem asfalto, coberta de areia vermelha, passa ser o palco de nossas brincadeiras: pique-esconde, barra manteiga, Maria sai da lata, pula-corda e tantas outras formas de diversão que inventamos na hora e que nos entretêm até o cair da noite.
Em frente a uma vizinha rua da esquina, a estação de trem que, a cada partida de um comboio, nos dá a noção da hora com os longos apitos das marias-fumaças soltando faíscas pelos grandes narizes. No enorme pátio aos fundos do prédio principal, enormes composições fazem manobras e se abastecem.
Do outro lado da rua, um grande terreno, usado por uma empresa para armazenar os fardos de algodão antes de serem prensados e transportados para as indústrias distantes, é usado por nós como esconderijo nas brincadeiras. Entre as imensas pilhas nos encolhemos, escorregamos do alto e cutucamos as sacas para libertar as sementes das macias e brancas maçãs de algodão. O cheiro delicioso do ouro branco recém-colhido impregna nosso nariz e, misturado à poeira vermelha, nos faz espirrar e rir muito por isso. Às vezes aparece o vigia e nos dá um pega, fazendo-nos correr e, às gargalhadas, procurar outro abrigo.
A juventude chega.
Com ela, outras ambições, outros compromissos, outras histórias, mas o cheiro e o gosto da infância ficaram na lembrança. Agora o cuidado com os cabelos, o cheiro forte do perfume doce, a carícia dos vestidos rodados armados com anáguas rendadas que davam lindas formas à nossa silhueta, os sapatos de salto alto, os ternos para os meninos, o vai-vem na praça, os olhares atentos nos flertes, os bailes abrilhantados por famosas orquestras, os corpos colados rodopiando ao som dos boleros românticos, as cálidas carícias, palavras roucas ao pé do ouvido. Todos os sentidos em ação na vivência de momentos inesquecíveis. Momentos que se transformam em horas, dias, anos e...
A maturidade é inevitável.
A vida adulta na cidade grande nos remete a outras sensações. O barulho do ronco dos motores misturado ao som dos radinhos de pilha dos passageiros do ônibus lotado. A visão embaçada pela espessa fumaça, as mãos procurando apoio para o equilíbrio. O gosto ácido da responsabilidade misturado ao prazer da busca por um lugar ao sol. É assim que as lembranças vão sendo substituídas por outras que nascem agora tendo como cenário um mundo diferente não menos desejado.
Aos poucos, a adaptação. Com ela, outras belezas se incorporam ao cenário da passarela dos sonhos. Agora o trajeto tem outras cores: jardins floridos, bandeiras tremulando no alto dos prédios, cheiro suave das panificadoras, o apito atento do guarda de trânsito, o contato suave dos grossos agasalhos a nos proteger do frio intenso são coisas que fazem parte do cotidiano.
É a vida que pulsa dentro da gente, proporcionando uma existência feliz. Quando se percebe... O outono chegando, não cinza, mas de um verde-esperança, de um azul-céu de paz, um lilás de tranquilidade, um celeiro de energia e alegria de viver. Outros projetos, outros sonhos e o renascimento na busca da vida simples do interior. O retorno, não para a terra natal, mas para a muito charmosa e não menos querida Cidade Azul. 
Por que essa escolha? Porque, das muitas fugidas da cidade grande nos feriados e nas férias, é Rio Claro a cidade escolhida: além do aconchego familiar, a tranquilidade e a beleza no seu jeito provinciano de ser. O jardim público com a charretinha levando as crianças para passeios e os carrinhos de pipoca e sorvete me trazem de volta o encanto da infância. A beleza da Floresta Estadual, com as ninféias perenes colorindo o lago, os aguapés lilases enchendo de magia o local.
Os ipês encantando as avenidas e o calor dos amigos que já fazem parte da minha vida influenciaram sobremaneira minha decisão de aqui viver. E o destino quis que a residência tivesse a sacada voltada para o pátio da velha estação de trem. E, para mais além no horizonte, o grande horto florestal faz rescindir o cheiro suave dos eucaliptos e serve de palco para revoadas de pássaros no cair das tardes. Isso sem contar o espetáculo do nascer do sol e de sua irmã lua. 
Mas... como nem tudo são flores em qualquer caminhada, minha cidade do coração também já não é a mesma. Cresceu, está com cara de cidade grande. Com lindos espaços de lazer e comércio muito desenvolvido, perdeu um pouco da sua timidez, mas continua aconchegante. Apenas uma coisa me deixa contrariada: o barulho fora do comum a me atormentar dia e noite.
O som do apito do trem que eu adorava na infância agora me incomoda, pois as enormes locomotivas abastecidas com óleo diesel e seus apitos estridentes e longos ofendem meus tímpanos.  Estridentes e dispensáveis, uma vez que o trânsito não é tão grande e uma cancela é fechada para evitar acidentes quando o comboio passa. Por causa do barulho infernal, os cães recolhidos da rua e alojados em um espaço perto dos trilhos põem-se a latir nas madrugadas.
Os animais não têm culpa. É louvável a iniciativa da ONG em tirar das ruas os animaizinhos indefesos. Os maquinistas, talvez cumprindo normas, também não são culpados. Mas, sinceramente, o que eu mais gostaria agora é ouvir o som do silêncio para dormir o sono dos justos.

domingo, 19 de junho de 2011

Fiel companheiro

Texto de Geni Bizzo

Foto tirada pela autora do texto, no museu da cidade de
Conservatória/RJ; o rádio é igualzinho ao da história relatada.

Dia 19 de Junho de 1958. A hora? Não me lembro. De pé, ouvidos atentos embolávam-nos ao redor de pequenina estante acompanhando a voz nervosa do locutor esportivo naquele dia que seria um marco na história do futebol brasileiro. Oito anos depois da derrota histórica no Maracanã quando perdemos para o Uruguai o Brasil apresentava uma nova geração de craques que dominou o cenário mundial do futebol por alguns anos. O mundo se encantava com jogadores como Pelé e Garrincha -principais estrelas- e nós, nos encantamos com os suecos que, embora derrotados, aplaudiram de pé a seleção quando o capitão Bellini recebeu a taça e a colocou sobre a cabeça para que todos pudessem fotografar.

A transmissão era muito ruim com chiados que dificultavam o entendimento, mas nosso personagem principal foi fundamental para que pudéssemos vibrar soltando o grito de campeão sufocado na garganta desde 1950. Estou falando do nosso amigo inseparável que nos atendia sempre embora levasse uns safanões vez em quando para que trabalhasse direito. Um rádio SEMP, tamanho médio que fora adquirido três anos antes para que meu pai pudesse acompanhar o resultado das eleições.

Um apaixonado pela cidade e admirador ferrenho de Joaquim Geraldo Correa candidato a prefeito de Araçatuba em 1955, meu pai acompanhava passo a passo o resultado do pleito. No dia mesmo que fora às urnas, a meia noite colava o ouvido no rádio para ouvir o nome do seu candidato quando da retirada da primeira cédula, da primeira urna. Dizia ele que o primeiro voto computado é que decidiria a eleição. Zizinho( como era carinhosamente chamado) foi eleito e, graças a ele o rádio passou a ser nosso companheiro fiel.

Nessa época a Radio Nacional do Rio de Janeiro vivia seu apogeu e chegava aonde não chegavam a escola nem a imprensa facilitando inclusive a compreensão dos analfabetos. Mesmo nas fazendas mais distantes e isoladas as pessoas podiam acessá-lo graças às baterias ou acumulador e acompanhar a divulgação das músicas “caipiras” que traziam a essência e o romantismo do homem do campo.

A programação da rádio era imensa, mas o forte eram os shows de auditório principalmente comandado por Cesar de Alencar onde desfilavam estrelas como Emilinha Borba, Marlene, Ângela Maria, Ivon Curi, Luiz Gonzaga,Cauby Peixoto e uma constelação imensa que levava os fãs clubes ao delírio e não raro ás brigas na defesa de seus ídolos. As eleições de rei e rainha do rádio eram acompanhadas com muita atenção. Também o grande sucesso da época O Repórter Esso – “Testemunha ocular da história” “O primeiro a dar as últimas” - cuja música tema ecoa em nossos ouvidos até hoje - era programa obrigatório em todos os lares.

Acompanhávamos tudo com muita atenção e aproveitávamos para cantarolar as canções das paradas de sucesso, principalmente as marchinhas de carnaval e as serestas Outro grande fenômeno eram as radio novelas, mas nos eram proibidas, pois segundo meu pai era só choradeira e mau exemplo. Gostávamos e ouvíamos os demais programas quando conseguíamos, pois como já disse as transmissões eram às vezes horríveis e com os chiados perdíamos a metade da apresentação ou a paciência quando então desistíamos. Os Programas como: Consultório sentimental, Jararaca e Ratinho, Seriado “Jerônimo – o herói do sertão” “Edifício Balança, mas não cai” faziam parte de nossa seleção.

Embora a Rádio Nacional fosse a mais famosa ouvíamos também outras emissoras O Programa PRK 30 esse da Radio Mayrink Veiga – era o preferido de meu pai que dava gostosas gargalhadas. Também sintonizávamos a rádio Record - A voz de São Paulo, Difusora, Tupi e tantas outras que se dividiam nas transmissões diretas ou em cadeias. A rádio Bandeirantes - líder no esporte – também transmitia o famoso programa “Na serra da Mantiqueira” com a dupla caipira mais famosa do Brasil – Tonico e Tinoco - Acostumados a ouvir e imaginar nos perdíamos em divagações – casar a voz com seu dono era nosso sonho.As donas de casa cumpriam seus afazeres domésticos sempre com um rádio ligado e o ouvido atento.

As emissoras locais eram também muito ouvidas principalmente durante o dia quando as transmissões de emissoras da Capital se tornavam quase impossíveis. Programas como-“Lembrei-me de Você” onde se oferecia uma música por ocasião de aniversário ou casamento, e a “Ave Maria” às dezoito horas eram sagrados em nossa casa.

Os anos se passaram e o pequeno rádio acompanhava nossa trajetória. Quando surgiram os Movimentos como Jovem Guarda, Tropicalismo, e Festivais da MPB já trabalhávamos e estudávamos à noite e, com os ouvidos colados por causa do baixo volume obrigatório para não acordar os demais, acompanhávamos nossos ídolos não nos importando com a hora tardia e com a obrigação de acordar cedo.

Com o advento da TV acentuado pela revolução de 64 houve o declínio dos Anos de Ouro da Rádio Nacional – conhecida como “Escola do rádio” possibilitando a ampliação de outros canais, e a devoção que se conhecia pelos programas foi transferida para a Televisão embora sem aquele brilho do rádio.

As transmissões pela TV custaram a chegar ao interior, mas mesmo depois de sua chegada nós fomos os últimos a te-la em casa para podermos acompanhar, pelo menos, os vídeos tapes. E durante muito tempo ainda o rádio continuou sendo nosso fiel companheiro mesmo porque não era necessário parar os afazeres para nos entregarmos aos sonhos coisa que a TV exigia.

As muitas histórias que esse amigo nos proporcionou ficaram registradas em nossa memória e descrevê-las seria impossível, mas o maior registro foi com certeza o da importância que ele teve em nossas vidas. Mas como nada é definitivo ele também “passou”.

Que pena! Foi ficando no esquecimento depois que deixamos nossa casa. Soubemos que seu interior foi comido por ratos guardado que estava num quartinho dos fundos. Depois não tivemos mais notícias, mas a lembrança e a saudade, essas ficaram e ficarão para sempre.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

A dor só minha

Geni Deolinda Bizzo


Eu me lembro da dor doída e do gosto amargo da decepção, quando um tsunami entrou Rua Carlos Gomes adentro, atingindo a praça arrastando tudo. Os balões de gás coloridos se enroscavam nas altas árvores frondosas. As bandeirolas verde-amarelas arrancadas das mãos das crianças voavam, e todos os sonhos guardados para esse dia em especial foram-se desmanchando. Era assim que me sentia naquele dia fatídico.

Eu me lembro...

Praça Rui Barbosa apinhada de gente naquela linda manhã de setembro. O sol saía das entranhas da terra com seu brilho morno, prenunciando a primavera e ressaltando ainda mais o colorido das crianças que pulavam ao redor do coreto enquanto aguardavam a festa. Vendedores de uniforme e boné se esmeravam para atender os pequerruchos. Balões de gás, bandeirolas do Brasil, é claro, algodão-doce, sorvete, pipoca, pé de moleque. Os pais atendiam como podiam, mas com muito gosto, por participarem de um evento raro na provinciana cidade.

De uniforme azul e branco, sapatos pretos e meias soquete, gravata preta, cabelo arrumado, leve maquiagem e um vazio no estômago provocado pelo longo jejum que se misturava à ansiedade, eu, toda faceira, aguardava feliz o início do cortejo.

Minhas colegas de turma e eu havíamos formado, como abelhas operosas, o pelotão de frente, na rua defronte ao colégio. Daí faríamos o trajeto pela rua Carlos Gomes, contornaríamos a praça se seguiríamos no desfile cívico da Independência. Nós, normalistas, estávamos orgulhosas: era nossa a honra de seguir os lindos jovens do Tiro de Guerra que conduziam o Pavilhão Nacional. Na formação privilegiada podíamos observar tudo e trocar olhares, já prenunciando o encontro para o final do compromisso. O tempo se arrastava e uma longa espera já nos preparava para um desfecho cruciante.

Estranhando a demora, enquanto aguardávamos o início cochichávamos, tentando entender o que estava acontecendo. Não podíamos sair da formação: a disciplina era rigorosa, e tudo que não queríamos naquele momento era que alguém nos chamasse a atenção na frente dos pracinhas.

O suor escorria e o penteado já se desmantelava quando, finalmente, veio a triste notícia... Silêncio cósmico. Espanto, um misto de tristeza e angústia tomava conta da multidão. A voz empastada do diretor anunciava o fim do desfile que não começara. Acabávamos de perder, em um trágico acidente, monsenhor Victor Ribeiro Mazzei, nosso pastor de almas durante muitos anos e que agora retornava à cidade para os festejos da Independência. Era, sobretudo um cidadão araçatubense amado por todos, católicos ou não. Não haveria desfile, não haveria festa, não haveria sorvete de coco queimado, não haveria encontros furtivos, não haveria aquele encontro sonhado. Somente dor e desolação.

Eu me lembro...

Dispersamo-nos e nos dirigimos à praça. Ao invés da algazarra da criançada feliz, somente o soar melancólico do enorme sino da Igreja Matriz que se preparava para a cerimônia fúnebre. Minha cabeça girava num misto de fraqueza, dor e revolta.

Eu me lembro da sensação terrível do grito de dor na garganta e hoje tenho a certeza de ter vivido horas no meio de um tsunami. Minha dor maior era de frustração. No meu mundinho interior, bem lá dentro, sentia por não sentir a mesma tristeza de todo mundo. A dor doída era particular, só minha.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A eterna procura - Uma carta de amor

Texto de Geni Bizzo

Saudade imensa...


Onde anda você? Em vão a procuro nas minhas incansáveis rondas pela cidade grande, caminhando por entre os archotes modorrentos na fria madrugada do outono que se prolonga.

O pisca-pisca do neon embaralha minha visão, cansada das noites insones. Percorro as ruas e becos que não dormem... Observo olhares ainda cheios de malícia e de desejo, na maquiagem exageradamente carregada das mulheres que terminam seus turnos. Vejo homens, paletós nos braços, com o cigarro entre os dedos amarelados pela nicotina que impregna a pele; mais adiante encontro o transformista que, vencido pelo cansaço da noite longa e exaustiva, vai-se desfazendo da montaria antes mesmo de chegar ao carro... Mas nada, nem sombra de sua silhueta, aquela que trago na lembrança e que teima em me torturar.

E eu continuo na maratona incansável à sua procura. Nos caminhos e descaminhos enfileiram-se arranha-céus e mansões com jardins bem cuidados, contrastando com favelas superpovoadas, a exibir a miséria colorida. O vaivém das deselegantes meninas e madames com trajes impecáveis, trânsito desordenado, ambulantes que gritam os seus produtos, pobres miseráveis mendigando pão, nada me é indiferente. Resta a esperança, que insiste em não morrer. Quem sabe em algum olhar a encontro.

Não a vejo nem mesmo nas choupanas distantes, onde pequerruchos seminus e barrigudinhos, donzelas de olhos brilhantes e já cheios de malícia, homens e mulheres nas portas com seus radinhos de pilha influenciados pelos efeitos da globalização vivem suas miseráveis vidas... Inútil. Não poderia encontrá-la logo ali, onde a beleza da paisagem é sufocada pela ambição do ser humano.

Vencida pelo cansaço e pelo sono, sonho com o tempo em que compartilhávamos nossas fantasias. Saudade. — Você se lembra das nossas caminhadas pelo milharal dourado, do perfume doce das espigas maduras? E das trepadeiras de buchas, matérias- primas para nossos exércitos na luta contra o mal, você na garupa do alazão que eu cuidadosamente fizera para nossos longos passeios?

Não... Você não pode ter-se esquecido do clarão da lua cheia – Dama da Noite –, quando observávamos o bailado das estrelas cadentes, nem do grande queijo comido pelo ratão do banhado, no quarto minguante. Impossível esquecer os dias quentes e ensolarados, quando nuvens de algodão, em seus movimentos constantes, formavam lindos castelos onde iríamos morar um dia? Como não lembrar-se das viagens à praia e de nossos folguedos, rolando sem censura na areia beijada pelas rendas de espuma da água fria a sufocar nossos desejos?

Lembra-se?

Ah! Onde foi que nos perdemos? Onde anda você, INOCÊNCIA?

Volta para mim. Volta para esta alma indefesa e frágil, que sofre com sua ausência diante deste conturbado mundo.

Faça-me voltar ao tempo em que andávamos juntas...

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Conversa no Jardim



Debaixo do caramanchão florido, olhos semicerrados, negras madeixas beijadas pelo vento, a menina parecia dormir. As cores pálidas da madressilva exalavam perfume suave, combinando com a simplicidade dos pequenos buquês mesclados de vermelho e branco.
O silêncio da tarde só era quebrado pelo nhec-nhec do balanço que lhe serve de moldura. Como que a compor esse quadro campestre, seus companheiros vão chegando: uma lagartixa que corre, um beija-flor que se farta de néctar, uma salamandra que se agarra a um tronco, um gatinho ronronando que se espicha no seu colo. Uma libélula traça filigranas no ar, depois assenta-se rapidamente nas águas tranquilas do lago sereno logo à frente.
Em meio a isso tudo, as flores que compõem esse lugar mágico põem-se alerta: algumas abelhas aproximam-se perigosamente, atraídas pelo doce da calda do picolé que a menina distraidamente deixara derretendo, vencida pelo sono. Diligentemente, cuidaram de desviar a atenção das pequenas voadoras, antes que um movimento involuntário da menina provocasse um acidente.
Passado o perigo, as flores voltam a fazer o que mais gostam, neste éden encantado: filosofar. Sim. Qualquer acontecimento era motivo de grandes e acaloradas discussões entre elas, num debate que, às vezes, se estendia até quase o crepúsculo.
O assunto desta manhã fora justamente provocado pela menina. Por que, indagavam elas, a garota insistia em manter os olhos fechados, mesmo frente ao perigo iminente? O girassol, achando-se o máximo, colocou-se como mediador. Afinal, que outra flor teria sua capacidade de acompanhar com o olhar o caminho trilhado pelo deus-sol? E propôs que a discussão abordasse as diversas formas de se comportar dos humanos, com seus diversos “olhares”.
Maria-sem-vergonha, aparecida como sempre, foi a primeira a falar:

— Tenho umas parentes que vicejam em um campinho de futebol. Elas me contam tudo o que acontece com os humanos que frequentam aquele lugar. Digo de cadeira: As pessoas não vão lá só para se divertir e praticar esporte. Muitos deles estão à espera de que alguém os veja. Mas não é um alguém qualquer. Chamam a ele “olheiro”, uma pessoa que vive de caçar talentos. Os jogadores esperam uma oportunidade de ser convidado para treinar em grande time e, para isso, não perdem a oportunidade de se exibir, mostrado seus conhecimentos de futebol. Os olheiros funcionam como uma espécie de instituição, que capta talentos esportivos em todo o mundo.
A ninféia quase não deixa a colega terminar. Emendou:
— Você falou em olheiro e me fez lembrar. Vivo na água, vocês sabem. Em um lago, é bem verdade. Mas sei tudo sobre o mar. Certa vez, estava um grupo de pescadores conversando e um deles contou sobre a pesca artesanal de tainhas, iniciada pelos colonizadores açorianos lá pelos idos de 1692, quando chegaram à ilha. E sobre o trabalho de “olheiros” também. Por isso me lembrei.
E continuou: — Por volta das quatro da manhã, esses homens sobem aos costões do mar para espreitar a chegada dos peixes e informar aos pescadores que aguardam na praia a exata localização dos cardumes e a hora certa para iniciar a pesca.
— Pois eu vejo o olhar por outro ângulo.
Todas as demais flores calaram-se. Era a espada de são jorge, com suas voz tonitruante, porte militar, postura ereta, fardas engomadas, a impor o respeito de todas. Aproveitou o silêncio que se fez para continuar:
— O assunto faz-me lembrar os filmes da idade média, assunto da conversa de dois jovens neste mesmo balanço em que descansa a garotinha. Diziam eles que os comandantes das armadas dos grandes castelos medievais colocavam sentinelas ao redor de toda a muralha.
— E é do olhar atento daqueles soldados que dependia toda a segurança do castelo, completou a espada de são jorge.
O girassol, do alto de sua magistratura, a tudo acompanhava, com ar de superioridade, fingindo a tudo entender, para disfarçar a sonolência que tanta informação produzia.
No pequeno vácuo que se fez, a camélia criou coragem. Mesmo sem querer se exibir, disse:
— Nós, camélias, somo o símbolo dos abolicionistas. Servíamos de senha para identificar os cavalheiros abolicionistas e, com isso, ajudar os negros fujões.
— Mas o que isso tem a ver?, apartou o mal-me-quer, com o humor ácido que lhe é peculiar.
— Você não sabe? O olhar atento dos escravos buscava jardins das casas onde houvesse um pé de camélia, sinal de compromisso com a causa.
A orquídea, com as pétalas ainda respingadas pelo orvalho que o sol não secara, ouvia em silêncio. Achava tudo aquilo interessante, mas entendia que era hora de mudar o rumo da prosa, como costumava dizer. Ela, que já havia sido palco de inúmeras experiências de cruza, dizia-se esperta em assuntos visuais. E, querendo imprimir um ar mais científico à conversa, iniciou seu discurso:
— O olho é o dispositivo mais engenhoso da natureza. Em princípio poderíamos compará-lo a uma câmara fotográfica. A objetiva da câmara equivale à córnea, as pálpebras encarregam-se de mantê-la limpa, clara e livre de tudo que possa turvá-la. Ambos os olhos se movimentam coordenadamente para que possam seguir o objeto observado. Apesar de sua importância, nem todos têm o cuidado devido com seus olhos e não valorizam o sentido da visão em toda sua magnitude.
O girassol, agora já meio cansado, dizia, com a voz a trair um certo enfado:
— O próximo, por favor.
A rosa, que esperava silenciosa e pacientemente sua vez, naquela manhã estava especialmente mais linda ainda, deslumbrante mesmo. Com toda sua ternura mística, propôs-se a falar do olhar sob um novo enfoque: o olho na simbologia. E começou:
— O olho, órgão da percepção visual, é reconhecido quase que universalmente como o símbolo da percepção intelectual. É assim que temos, sucessivamente, o olho físico na sua função de recepção da luz; o olho frontal, o terceiro olho, e, finalmente, o olho do coração. Todos os três recebem luz espiritual. Na filosofia, o olho também denota visão, maneira de ver.
Silenciosa, a doce violeta, exalando seu suave perfume, se desvencilha das folhas que a protegem e também a escondem e enfatiza, serena:
— Bem-aventurados os vossos olhos, porque veem,... *
— Refletir sobre nosso modo de ver, eis a questão. E continuou, com a humildade que lhe é peculiar:
— Olhos... patrimônio de todos. Encontramos, porém, olhos diferentes em todos os lugares. É preciso estar atento e forte para discernir, pois, segundo asseverou o apóstolo Paulo de Tarso, “Tudo me é lícito, nem tudo me convém”. É preciso critério, equilíbrio e, principalmente, atenção em nosso caminhar pela vida, para não sermos surpreendidos por situações perigosas, consequência de um olhar desatento.
Antes que o girassol desse por terminada a reunião – estava louco para isso –, a natureza veio a seu favor e o ajudou a encerrar o assunto, mesmo que outras flores estivessem doidas para falar.
Uma rajada de vento frio despertou a garota que, esfregando os olhos, espantou as abelhas. Ainda sonolenta, enquanto espreguiçava, veio-lhe a nítida impressão de que sonhara. Esforçou-se por lembrar e, passando a mão pela testa, achou engraçado quando lembrou-se de alguém que lhe falara sobre o “terceiro olho”, localizado no ponto entre as sobrancelhas, que, segundo a tradição hinduísta, está ligado à capacidade intuitiva e à percepção sutil.
Nisso, uma abelha retornou. Ela, agora atenta, intuitivamente a espantou e acabou por se lembrar do sonho (embora não dos personagens). Nele, lembrava-se agora, havia sido enfatizada a atenção ao modo de ver e perceber as coisas. Recordou-se de seu grupo de amigos escoteiros, cujo lema no mundo inteiro é: SEMPRE ALERTA.
E... já que havia despertado, aproveitou para percorrer com mais atenção o jardim, observando a beleza de cada flor. Instintivamente, começou dialogar com elas, como que agradecendo a oportunidade do aprendizado.

Texto de Geni D.Bizzo

* Matheus. 13,9... 17

Theo



Ondas gigantescas batem na parede transparente e, ao descerem, compõem uma forte correnteza em direção ao gargalo da enorme cratera, por onde se escoam as águas.
Observo entre assustado e curioso o lindo espetáculo. Folhas enormes da renda portuguesa se contorcem, varrendo o chão encharcado. Aves, acostumadas como eu a alçar pequenos vôos, cruzam os espaços macios da “enorrrrrrrme...” residência. Neste momento, me imagino planando por sobre as árvores, sentido o frescor agradável da atmosfera lavada pela chuva torrencial. Mas não posso ir além. Embora seja livre num espaço relativamente grande, minha liberdade é limitada. Não tenho condições de sobrevôo e não mais conseguiria viver sem a proteção dos humanos.
Lembro-me de que sou uma ave da família das calopsitas. Meu nome é THEO. Sinto-me um pequeno humano, dividindo espaço com uma companheira que, humana, sente-se uma enorme calopsita. Nossa história é bonita. Cheguei nesta casa num momento difícil e de muita tristeza. Fui trazido como presente por um parente dela, para ser seu companheiro divertido e leal. E cumpro meu papel. Entendemo-nos muito bem. Às vezes até pelo olhar. Nossas vidas são tão semelhantes que até nos confundimos.
Meus antepassados são da Austrália. Nossa migração só começou a acontecer em meados do século XIX. Foi quando os antepassados de minha companheira também partiram em busca de novas terras. Foi nessa mesma época – um pouco depois, talvez – que tomaram o navio na Itália rumo a este país maravilhoso em busca de dias melhores.
E as semelhanças não param por aí.
Somos divertidos, leais, inteligentes, nos adaptamos muito bem às situações adversas; sentimos fome, medo, frio, alegria, dor, tristeza, aceitação, rejeição.
Eu, como não conheço a vida lá fora, me sinto um “lorde de plumas”. Sou bonito, com penas coloridas e a cara vermelha, parecendo maquiadas com cuidado. Vivo numa gaiola aberta, colocada bem no alto de uma escadinha, que uso como academia, num sobe e desce constante. Tenho total liberdade para ir e vir na residência. Adoro ser tocado, acariciado, mas só quando me sinto confiante. Retribuo da mesma forma. Sou dócil e afetuoso, aprendo com facilidade as músicas que me ensinam.
Ela, ah... Ela também. É alegre, divertida, elegante, gosta de cantar, é sonhadora. E, como eu, embora se diga livre, não o é verdadeiramente. Vive prisioneira dos medos, tensões, aflições de como conduzir a vida. Tem medo do que possa lhe acontecer, embora se afirme com muita fé e a tem, às vezes fraqueja e se torna prisioneira de preconceitos, de ansiedades, de julgamentos.
Quando pode “voar” com seu anjo de pés de borrachas, o faz de maneira tacanha, com os vidros fechados e embaçados, sentindo a cada passo o pavor de alguma aproximação. Angustia-se, tem medo de não dar conta do recado quando a dor ou a necessidade se aproximarem. Como enxergar a vida diante da escravidão materializada na presença do medo, configurando a vida super-avaliada nas necessidades criadas pela ansiedade?
Se eu pudesse verbalizar, diria:* “Olhai as aves do céu, que nem semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai Celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?”
Qual a diferença entre as necessidades do Homem e das aves? Está em uma palavra: Consciência. É ela que dá ao homem a dimensão do tempo e do espaço, das suas necessidades, de sua finitude. Isso não acontece com nenhum outro ser, nem mesmo aves, como eu.
Claro, sei que as necessidades dos humanos são maiores que as nossas. Como sei que necessidades geram ansiedades, medos, que os aprisionam cada vez mais. Mas, mesmo assim, procuro transmitir com meu olhar o que penso: confie, seja firme e forte para que, depois da “chuva” de preocupações e de problemas, a “atmosfera da alma” esteja lavada e protegida com o conforto que Deus nos concede.
Continuo observando a chuva, enquanto ela dorme recostada no sofá. Talvez sonhe livre e, voando nas asas livres de um sonho, tenha a consciência do que nos diz o filósofo Sêneca “A vida é feliz”, E sem ansiedades e preocupações, sua vida irradiará alegria, tranquilidade e bem-estar perenes.
E que ela, finalmente, possa perceber que às vezes precisamos dar uma pausa nas nossas angústias para despreocupadamente vivermos o que é simples, como a vida das aves.

Texto e foto de Geni D. Bizzo

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Exercício Dilema Ético IV

Sonhos de meninos - Alice Ferreira

Na pequena cidade de Martelândia, um grupo de meninos, na faixa etária entre 8 a 12 anos aproximadamente, eram internos do Orfanato “Bem te Quero”. Estes sonhavam um dia retornar às suas famílias de origem. Famílias humildes, sem condições econômicas para educá-los; na maioria tendo somente um ou uma mantenedora. Nenhum com família completa de pai e mãe.

A ansiedade destes pequenos era tão grande que, um dia resolveram por o pé na estrada.

Começa aí a grande aventura dos meninos sonhadores. Fugiram do Orfanato, andando a pé, só com a roupa do corpo, sem alimentação e com objetivo definido: a casa dos familiares, por mais desmantelada que fosse.

Como seu destino de origem estava muito longe, resolveram parar na cidade de “Costa de Tina”, descansar, pois estavam com fome e desidratados. Quem os encontrou foi um Comissário de Menores, que os encaminhou ao Delegado de Polícia, pois já era tarde da noite.

Os meninos ficaram instalados em uma das celas vazias da Delegacia, dormindo no chão, sem alimentação e nada para cobrir seus corpinhos sujos e cansados.

No dia seguinte de manhã, o Comissário de Menores procurou a Assistente Social da cidade que atuava no Projeto de Menores, para que tomasse as devidas providências.

Entrou na ação toda a estrutura da Instituição Regional e a sede que ficava na capital do estado.

A Assistente Social, segundo orientações de sua Coordenação e Diretoria Técnica, teve 24 horas para retirar o grupo de meninos da Delegacia, levá-los para a sede do Projeto local, alimentá-los e encaminhá-los de volta ao Orfanato.

A ordem teve que ser cumprida. A Assistente Social e Coordenadora do Projeto Administrativo acompanhou o grupo dos pequenos sonhadores de volta ao Orfanato “Bem te Quero”

PARA REFLETIR:- Enquanto muitos sonham em ganhar grandes somas em loterias e ficarem ricos, estes pequeninos só sonhavam estarem com suas famílias, queriam “colo de mãe” .

O fato aconteceu realmente, com mais desdobramentos angustiantes. Em virtude de ética, mudou-se nome da cidade, do Orfanato e outras peculiaridades.


Reforma da natureza e o gene terminator - Vera Gracia Lorenzon Ferreira

O homem nômade se alimentava com o que encontrava na natureza.

Com sua experiência de “erros e “acertos”, foi domesticando os animais, diferenciando plantas comestíveis das venenosas, organizando-se em grupos sedentários, foram surgindo os povoados, as vilas e as cidades; a produção de alimentos sempre aumentando. Com o desenvolvimento cultural, o homem começou a diversificar sua alimentação, passando a usar microorganismos na preparação do pão e do vinho.

Experiência do Padre Gregor Mendel, há mais de duzentos anos, com saborosas “ervilhas”, deu início aos estudos de genética na alimentação e nutrição. A partir de então, conseguiu-se enorme avanço na produção de alimentos, para os homens e para os animais. Novas variedades de arroz e trigo, os cereais mais produzidos e consumidos no mundo, foram desenvolvidas.

Através da transferência de caracteres ou genes, que estão no DNA de cada célula de todo ser vivo, eis o surgimento de uma nova espécie de planta ou animal!

Eis o HOMEM se arvorando em CRIADOR!

Atualmente, grande empresas químico-farmacêuticas investem fortunas para criação de variedades de sementes e novos medicamentos, através da transferência de caracteres genéticos de uma espécie para formar outra espécie; dando surgimento aos AGM=Alimentos Genéticamente Modificados e OGM=Organismos Genéticamente Modificados .

Porém, por terem sido “criados” em laboratório estes AGM/OGM são patenteados por suas empresas criadoras e só podem ser reproduzidos por seu “dono”; ou seja, o agricultor que precisar da semente de uma planta ou o pecuarista que necessitar reproduzir cria de animal, terá que comprá-la destas empresas multinacionais, como a Monsanto ou Monsatã, como está sendo denominada. Por exemplo: a soja transgênica (da Monsanto) é resistente ao herbicida Roundup (da Monsanto) e o agricultor terá que adquirir a semente e o herbicida desta empresa, o que configura venda casada, que o governo diz ser proibida, mas o governo terá voz diante das multinacionais ?

E isto é só a ponta do iceberg, pois as pesquisas não param e a cada dia criam-se mais e mais produtos, “viciando-os” com o “seu herbicida”, com o “seu antibiótico”, sem se preocuparem com a inevitável contaminação e envenenamento da natureza...

Como estas empresas são muito “espertas” e não cogitam em perder nenhum centavo de dólar de seus polpudos investimentos, já planejam a criação de um gene denominado “gene terminator”, que incorporado às sementes, deixam-nas estéreis, obrigando o agricultor a adquirir novas sementes sempre que for fazer o plantio, destruindo todo um patrimônio genético de sementes criado até agora pela humanidade. . .

Finalizando, deixo como sugestão a leitura da obra escrita em 1952, por Monteiro Lobato a REFORMA da NATUREZA, em que há um interessante diálogo entre Dona Benta e Emília.


A solução de um dilema – Letícia Brunelli

Minha história precisa ser narrada. Precisa ficar registrada como um alerta para a sociedade. Mas como? Talvez seja tarde demais!

Meu nome é Flora Mendes e tenho uma filha de dezenove anos, que faz faculdade em Belo Horizonte. Fui morar em Penedo, cidadezinha pacata, mas muito hospitaleira,quando procurei emprego, após ficar viúva, ano passado. A cidade é cortada pelo Rio Capim Santo, um dos afluentes do Rio São Francisco. Tinha conseguido uma colocação na “Indústria de Papel Wallpaper” no setor de minha profissão, pois sou Engenheira Química.

Não faz um mês, fui alertada por um funcionário que o tanque de decantação e tratamento do esgoto da fábrica apresentava um sério vazamento, que estava causando infiltração de produtos tóxicos no solo adjacente, que não era muito distante da margem do rio. Logo a contaminação alcançaria a água do rio, tão importante para a cidade, que ficaria irremediavelmente comprometido.

Encaminhei o problema para o setor de manutenção, que tentou, sem sucesso, saná-lo.

Era necessário parar o funcionamento de toda a fábrica para reformar o tanque, que recebia todo o esgoto dela, para ser tratado, pois ele estava comprometido com várias rachaduras.

O problema, em seguida, foi levado ao Diretor da Empresa. Ele respondeu que iria chamar um engenheiro para avaliar o assunto. Os dias se passaram. Ninguém apareceu para fazer a tal avaliação.

Eu só pensava nas consequências daquele incidente. O produto tóxico se espalhava e a contaminação das águas era um fato eminente.

Ninguém ficou sabendo de nada; o diretor tinha nos pedido sigilo para não causar pânico. E ninguém percebia nada, pois a infiltração no solo não era visível, estava abaixo da superfície.

No começo dessa semana, voltei a reclamar uma providência. Em troca, recebi ameaças. A princípio, veladas, mas depois bem mais explícitas, quando falei que iria delatar o fato às autoridades, caso não fosse logo resolvido.

O fim de semana chegou.

O sábado amanheceu um lindo dia! Mas a chegada do carteiro, trazendo uma carta inesperada, transformou meu dia numa agonia! A carta trazia uma terrível ameaça contra minha pessoa. É lógico que era anônima, mas eu sabia de onde vinha...

Como a ganância pode ser tão maléfica! Como ela pode vir antes do bom senso e até da humanidade! Ponderei que a paralisação da fábrica geraria grandes prejuízos. Quem sabe, ela teria que mudar para outro município, até! Ou teria que dispensar vários funcionários!

Mas, e a poluição do rio? Também não afetaria a vida e a saúde de milhares de pessoas? E todo o ecossistema fluvial? Não iriam morrer peixes? A fauna e a flora da região também não ficariam afetadas?

O conflito se instalou em mim. Eu não poderia me calar diante da situação, nem como pessoa, nem como profissional, nem como cidadã, nem como mãe!

A noite foi de angústia e medo! O sono veio após um turbilhão de preces e ideias que povoavam minha mente. Enfim, meu corpo teve um breve e merecido repouso.

Hoje é domingo! O sol lá fora escancara a paisagem, que, assim como eu, vai acordando sonolenta e preguiçosa...

Cerro novamente os olhos e relembro a aflição da véspera. A carta . O conflito que se apossou de mim.

Abro os olhos! Eu já sabia o que iria fazer: vou registrar queixa; não vou contar minhas suspeitas, mas preciso procurar proteção! A lembrança da ameaça renovou meu medo, mas não posso me calar.

Segunda-feira vou procurar uma amiga minha advogada. Me informarei como posso levar às autoridades uma petição para que seja feita uma sindicância, para avaliar uma possível contaminação das águas do rio.

Sei o que vou enfrentar. Irei, sem dúvida, perder meu emprego.

Mais tarde, tentei registrar uma queixa na Polícia Civil. Procurei a delegacia, onde fui orientada a procurar a P.M. Quando fui lá, me mandaram de volta para a delegacia.

Antes de chegar lá, fui morta com três tiros à queima-roupa, disparados de uma moto, com dois rapazes de capacetes!

Minha esperança, é que este fato seja motivo de uma investigação e que sirva para solucionar o meu DILEMA.

Uma futura reportagem certamente noticiará:

JOVEM É MORTA APÓS DENUNCIAR AMEAÇA à POLÍCIA / da Agência Folha

Ela tentou registrar queixa na Polícia Civil e na PM, em Penedo, no domingo à tarde. Não conseguiu. Três horas depois, Flora Mendes foi morta a tiros por indivíduos desconhecidos. A ameaça ocorreu através de uma carta anônima. Flora procurou a delegacia e foi orientada a procurar a P.M. Mas lá foi mandada de volta à delegacia. Antes disso, foi morta. Um plantonista da delegacia disse que não há estrutura para atender casos como o de Flora, que são enviados à PM, que informou que não tinha policiais para atender a ocorrência. Um inquérito vai apurar o caso.

(A narrativa de D. Letícia é inspirada em fatos recentes, noticiados pelos jornais; vale como um alerta e como uma homenagem à mulher que não teve tempo para ser ouvida pela polícia do seu Estado).

Dilema Ético – Geni Bizzo

Frederico e eu percorremos o caminho ladeado por acácias carregadas de cachos dourados, comuns nos meses de novembro, e que nas manhãs de clima ameno exalam um suave perfume.

Converso com Frederico, mas ele não responde. Pudera, Frederico é meu fusca vermelho, companheiro constante em minhas idas para o trabalho, uma indústria de produtos químicos e de equipamentos para tratamento de água para caldeiras. A Engeltec – esse é o nome da empresa – fica próxima à rodovia, às margens do pequeno rio Baguaçu, que abastece a cidade Santo Antonio do Aracanguá.

Nessas minhas pequenas viagens diárias, vou conversando com o Frederico, mesmo com o risco de ser chamada de doida por pessoas que encontro no trajeto e que podem perceber o “diálogo” animado com meu amigo. “Coitada, falando sozinha..”, diriam elas.

Evito a rodovia. Sigo por um caminho de terra que mais parece uma picada tortuosa. Frederico não reclama. Conhece as pedras do caminho e aprendeu a desviar dos buracos que enfeitam a estrada com suas formas arredondadas. Na paisagem, algumas palmeiras com seus cachos amarelinhos de coquinho babão parecem querer competir com as acácias. Mais além as paineiras estalam suas bolotas sob o sol escaldante e forram o campo com suas plumas, verdadeiras neve de verão. Alguns animais pastam calmamente, alheios aos passarinhos que, agarrados aos seus lombos, se refastelam com os parasitas.

Continuo observando a paisagem, como sempre faço. Mas uma sombra de nostalgia anuvia meu semblante. O dia hoje tem cheiro de despedida. Pode ser minha última viagem. Tento, em vão, não pensar no que vai acontecer depois de hoje.

Explico melhor: sou engenheira química. Eu e mais de duzentas pessoas dependemos da Engeltec para viver. Dias atrás, observei uma avaria num dos condutos que dá passagem a um líquido tóxico que, se despejado na natureza, irá contaminar o meio ambiente. Para repará-la, seria necessário interromper todo o processo produtivo por um mês, no mínimo.

Comuniquei o fato ao presidente da empresa. Ele pediu que guardasse segredo, pois parar a fábrica iria significar a demissão de muitos funcionários, o que certamente iria acarretar uma crise local, numa região já tão carente de empregos.

Mas me calar significa permitir que não se corrija a avaria. Significa aceitar o vazamento do líquido tóxico, com a previsível consequência: contaminação das águas do rio, prejudicando a vida aquática e os habitantes que usam suas águas. Se falar, serei despedida. Meu Deus, o que fazer?

Minha cabeça ferve. Há uma confusão de pensamentos e sentimentos conflitantes com o que aprendi e as necessidades do mundo moderno.

Por um lado, o rio que me traz muitas lembranças. Foi a escola de natação de meus irmãos e coleguinhas que, escondidos das mães, mergulhavam em suas águas, ignorando os perigos que corriam. Foi também o rio onde meu pai e vizinhos muitas vezes passavam os dias de domingo na pescaria animada que combinava lazer e necessidade. Pelo menos uma vez por semana, um peixinho fazia a festa na mesa.

Por outro lado, a dura realidade deste mundo que mudou, da população que cresceu muito e desordenadamente. A tecnologia foi aprimorada para atender às necessidades que surgem. E não podemos ficar com saudosismos, afinal, gostamos do conforto que ela oferece.

Como conciliar as duas situações? Os chefes de estados e homens da ciência trabalham no sentido de minimizar os efeitos nocivos do progresso, criando leis com mecanismos que obrigam as indústrias a preservarem o meio ambiente. Mas acidentes como este acontece, bem sabemos.

Fui educada de forma a sempre me posicionar. Meu saudoso pai, embora adepto de uma educação austera que não dava direito à réplica, dizia sempre que mais vale uma consciência tranquila do que deixar que o medo nos domine. Dizia ele que o medo não tem tamanho e pode nos acorrentar numa grande bola de neve.

No trajeto, vejo plantações de algodão e de milho, onde os pequenos agricultores lutam com os parcos recursos financeiros para tocar um roçado que depende totalmente da água do rio para irrigar suas roças.

Sentindo o cheiro doce das espigas que explodem, tomo uma decisão: vou comunicar ao meu presidente que farei chegar esse acontecimento até às autoridades competentes e à imprensa. Daí...

Seja o que Deus quiser.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Árvore das Palavras - I


A força das palavras - Geni D. Bizzo

O sorriso muito branco que vemos nos rostinhos com cabelos encaracolados, lisos, crespos, loiros, castanhos, negros, muito compridos, curtos, com tranças, rastafári que se movimentam esbanjando saúde brincando nos pátios das escolas, creches, quintais, playgrounds, e até mesmo nos minúsculos apês e cortiços, nos mostra crianças felizes que não se importam com a condição social nem financeira (embora uma coisa sempre esteja ligada à outra).

Mas essa ligação eles ainda não percebem. Para eles, o que importa é o mundo do faz de conta.”Agora eu era o herói e o meu cavalo só falava inglês...” Para eles, não existe compromisso. As amizades surgem espontaneamente. As afinidades aparecem... E não raro oferecem oportunidades para brotar o amor. “... vem, me dê a mão a gente agora já não tinha medo...”

Ah! Mas como passa rápido esse tempo. Corre célere driblando aqueles que nunca têm tempo, nem paciência, para perceber a beleza davida.

A mudança é inevitável.A infância fica para trás e nova fase chega. Fase linda, mas conturbada. Desejos, ansiedade, o corpo se modifica sem que se tenha o entendimento preciso do que está acontecendo. Lágrimas escondidas, revoltas (não se sabe bem por quê), espinhas, menstruação. A cabeça cheia de perguntas sem respostas. Mas o sonho, este sim, continua no mundo do faz de conta... ”finja que agora eu era o seu brinquedo, eu era o seu pião, seu bicho preferido”...” e você era a princesa que eu fiz coroar e era tão linda de se admirar que andava nua pelo meu país...”

Quantos sonhos! A esperança povoa esses sonhos no silêncio de refúgios mil. E nessa confusão de sentimentos, o compromisso édeixado de lado. Até mesmo os afazeres da escola são negligenciados. Os pais, confusos, perdem a paciência e a paz. Veem-se perdidos. Buscam socorro nos especialistas e nas casas de orações. A fase deles já passou e eles já não sonham mais. Exigem respeito,que não cultivaram , e entram em pane.

O compromisso do jovem é viver a vida. ”Agora eu era o rei era o bedel era também juiz e pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz. Sim: ser feliz. E pronto!

Mas o tempo, implacável, não deixa por menos, e não tem perdão: a maturidade chega. ”Agora era fatal, que o faz de conta terminasse assim. Prá lá desse quintal era uma noite que não tem mais fim...” E a noite longa mostra que os sonhos são outros, o mundo do faz de conta se apresenta cheio de responsabilidades. É a profissão, o trabalho, a luta por um lugar ao sol. São os filhos... e dá-lhecompromisso. O compromisso, que era ser feliz, agora é com a sobrevivência.

Mas, paradoxalmente, num mundo onde imperam a desigualdade, os vícios e a delinquência, sonha-se, felizmente ainda, com aesperança, a paz, o companheirismo e a solidariedade entre as pessoas.

Sonha-se com o despertar das consciências. Para um compromisso maior que é ser e fazer os outros felizes. A frase de Margaret Med expressa muito bem esse pensamento.:

“Nunca duvide que um grupo de cidadãos comprometidos e preocupados possa mudar o mundo; na verdade, esta é a única forma de mudança que pode dar certa”.

Sonhando e trabalhando muito, unindo forças, caminhamos confiantes num futuro melhor, “... no tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido.”

(Obs.: A Geni criou um texto utilizando todas as palavras da nossa dinâmica).


Em defesa do amor - Leticia D. Brunelli

Dizem por ai, que o AMOR não é mais o mesmo !

Nos dias atuais,a palavra AMOR está banalizada, descaracterizada, comercializada. É um clichê !

Até estão satirizando que o amor é uma florzinha roxa que nasce no coração dos trouxas.

Já na poesia é um vocábulo de rima pobre. Rima com dor, suor, horror, terror, credor ! Mas também rima com flor, cor, fervor, ardor, calor ...

Que seria do jardim sem flor?

E do céu sem cor?

Haveria fé sem fervor?

E como a luta seria sem ardor?

Nosso planeta não seria o mesmo sem calor.

Já que o AMOR foi posto nos bancos dos réus, gostaria de ser eu uma testemunha de defesa juramentada.

A fim de ponderar sobre esta minha escolha , fui me informar. Buscando no dicionário encontrei.

“AMOR: sentimento que nos faz desejar o bem de outrem, sentimento de dedicação absoluta de um ser a outro. Devoção, adoração. Inclinação forte por pessoa de outro sexo; afeição, amizade, carinho, simpatia e ternura, zelo, cuidado.”

Será que o que tenho a dizer virá em favor desta definição?

Tomo coragem! Meu depoimento vai começar.

Nasci primeira neta de ambos os lados. Fui filha única até os oito anos, quando nasceu minha irmã.

Morávamos pegado da minha avó materna, que por sua vez era vizinha da minha outra avó.

Cresci no meio de adultos (avós, tios e tias solteiros). Minha infância foi maravilhosa. Eu era mimada ... e muito amada.

Nas aulas de catecismo (que duravam quatro anos, naquela época), aprendi que os mandamentos se resumiam em:

“Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.”

Fiz ginásio em colégio de freiras e lia textos belíssimos, como a carta de São Paulo aos Coríntios(13,1-8) que começa assim:

“Ainda que falasse línguas,

as dos homens e dos anjos,

se eu não tivesse o amor,

seria como sino ruidoso

ou como címbalo estridente.

Ainda que eu tivesse o dom

da profecia

o conhecimento de

todos os mistérios

e de toda a ciência;

ainda que tivesse toda a fé

a ponto de transportar

montanhas

se não tivesse amor

eu não seria nada.”

Fui catequista durante um tempo e devo ter repetido as palavras de Jesus:

“Amai-vos uns aos outros com Eu vos amei.”

Na juventude me emocionei quando li o “Pequeno Príncipe”. Quem não se lembra de frase como: “Só se vê bem com os olhos do coração, o essencial é invisível para os olhos.”; “Você fica responsável por aquilo que cativa.”

Tempos atrás, numa loja, escutei uma então jovem-senhora, comentar:

- “Passou a época do Pequeno Príncipe. “Aquilo” é conto da carochinha!”

Foi um simples desabafo em sua infelicidade. Passado alguns anos, seu filho tragicamente tira a vida do próprio pai !

Quando estava com vinte anos, me apaixonei por aquele que me acompanha até hoje.

Como poderia me manter enamorada após 42 anos, pela mesma pessoa, se não acreditasse no Amor?

Depois vieram os filhos e mais tarde os netos ... e trouxeram mais Amor, para nossas vidas !

Agora posso afirmar que em toda a minha vida:

Sempre o meu jardim teve muita flor ... olhando o céu, agradeci sua linda cor ... cultivei minha fé com todo fervor ... lutei minhas batalhas sempre com ardor ... e gosto da minha terra com muito calor ! Não imagino minha vida sem AMOR !

Finalizo minha fala, citando Camilo Castelo Branco :

“O AMOR é uma LUZ que não deixa escurecer a VIDA.”


Qual é o peso de cada palavra? - Teresa Moresco

Não fiz curso de português, por isso, me sinto muito frustrada, mas quando paramos um minuto para pensar nas palavras que ouvimos diariamente, percebemos que, de acordo com o contexto, elas tem um peso e um sentido.

Quando a mamãe, brincando com seu bebê o chama de “Tchutchuquinha” apertando sua bochecha, a criança entende que está sendo carregada de ternura, carinho, amor.

Ao contrário, se a mãe chamar a criança de “pirralho” o menino já sabe que está sendo tratado com rancor.

Há palavras doces como (benzinho), amargas (feia, velha), leves (pássaro), palavras pláticas (ondas), palavras tristes (saudade), e por ai vai..

As palavras que dão sobrenomes às pessoas também têm sua história. Por exemplo, na Itália, grande parte dos sobrenomes ou nomes atribuídos às pessoas, faziam uma referência a um característica particular da família ou do lugar onde viviam.

Só para exemplificar, vou tomar a liberdade de citar nomes de descendentes italianos que moram em Rio Claro. Conhecemos famílias cujo sobrtenome é Fontana Fontenete.

Segundo um texto que li no Diário do Rio Claro, escrito por um dos filhos da família, os antepassados moravam perto de uma pequena fonte, que ele tinha ido conhecer na Itália.

Já na minha família, tinha muitos primos cujo sobrenome era “Brancalhones”. cujas características físicas eram ser brancos de pele, cabelos claros, olhos azuis; tudo muito claro.

Às vezes me pergunto: qual teria sido o critério para nomear as coisas? E ai vou pensando nas palavras. Libélula, logo me vem à mente algo leve, esvoaçante. Ao contrário de elefante, lembra algo pesado, lento, espaçoso, monótono.

Divagando ainda mais sobre o peso de cada palavra, lembro-me de uma senhora, moradora de um apartamento próximo a uma favela . Todo dia filmava a ação dos traficantes empunhando armas de grosso calibre, lutando pela conquista dos seus territórios sobre as favelas.

Tudo isto me trouxe à lembrança a palavra consciência. Na luta pelo dinheiro, “para levar vantagem em tudo “, passa-se por cima de todas as palavras que dão sentido à vida, tais como: respeito, dignidade, amor, compaixão, solidariedade, etc...

Se tomarmos essas mesmas palavras para passar em revista todas as nossas instituições, desde a igreja até o Planalto Central (Brasília), notamos que realmente o nosso vocabulário, empobreceu, porque muitas das mais belas palavras que formavam os valores da sociedade, estão ausentes, principalmente a palavra consciência.