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Uma grande vitória poder divulgar o nosso projeto!
A OFICINA DE LEITURA E CRIAÇÃO LITERÁRIA
3A. IDADE CLARETIANAS FOI UM DOS PROJETOS SELECIONADOS PARA APRESENTAÇÃO NO III FÓRUM DO PLANO NACIONAL DO LIVRO E DA LEITURA E NO III SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE BIBLIOTECAS, EM AGOSTO DE 2010.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Viagem sensorial

Texto de Geni Bizzo

  Cai a noite tingindo de negro o espaço. Deitados, observamos o teto, rezando para que os olhos se acostumem à escuridão e nos permitam observar as réstias de luz produzidas pela lua crescente através das pequenas frestas da casa de madeira com telhado sem forro. O pisca-pisca das estrelas-vagalumes (ou dos vagalumes-estrelas) nos diverte e nos leva a imaginar viagens fantásticas no rabo de um cometa gigante.
Nossa mãe apaga a luz bruxuleante da lamparina a querosene para que possamos dormir. E ralha conosco, quando rimos das nossas brincadeiras ou damos abafados gritos com medo da assombração que, temos certeza, ronda a casa. São assim nossas lindas noites e, até que o sono nos domine, aproveitamos o tempo, que nos parece uma eternidade, num simplesmente fazer nada. 
Nas noites chuvosas, nos agarramos com medo do clarão dos relâmpagos que riscam o céu e tapamos os ouvidos aguardando o ribombar dos trovões. Os galhos que roçam os telhados são para nós passos de bruxas (ou de uma mula sem cabeça que vem para nos assombrar). O que nos distrai nesses momentos é o coaxar dos sapos que fazem festas, comemorando a água em abundância, fundamental para eles.
Amanhece o dia. Felizes, observamos atentos a relva molhada, sentindo  o cheiro doce da terra lavada e a beleza das pétalas brancas e perfumadas do sabugueiro gigante que forram o chão, emoldurando o pequeno quintal, nosso recanto feliz. Recolhemos as mangas derrubadas pela ventania e nos deliciamos ali mesmo, arrancando com os dentes as cascas que envolvem a saborosa fruta. Nova manhã, sol brilhando, e não nos lembramos mais da tormenta.
Os anos passam.
A pequena casa, agora de tijolos, possui luz elétrica e água encanada. A rua sem asfalto, coberta de areia vermelha, passa ser o palco de nossas brincadeiras: pique-esconde, barra manteiga, Maria sai da lata, pula-corda e tantas outras formas de diversão que inventamos na hora e que nos entretêm até o cair da noite.
Em frente a uma vizinha rua da esquina, a estação de trem que, a cada partida de um comboio, nos dá a noção da hora com os longos apitos das marias-fumaças soltando faíscas pelos grandes narizes. No enorme pátio aos fundos do prédio principal, enormes composições fazem manobras e se abastecem.
Do outro lado da rua, um grande terreno, usado por uma empresa para armazenar os fardos de algodão antes de serem prensados e transportados para as indústrias distantes, é usado por nós como esconderijo nas brincadeiras. Entre as imensas pilhas nos encolhemos, escorregamos do alto e cutucamos as sacas para libertar as sementes das macias e brancas maçãs de algodão. O cheiro delicioso do ouro branco recém-colhido impregna nosso nariz e, misturado à poeira vermelha, nos faz espirrar e rir muito por isso. Às vezes aparece o vigia e nos dá um pega, fazendo-nos correr e, às gargalhadas, procurar outro abrigo.
A juventude chega.
Com ela, outras ambições, outros compromissos, outras histórias, mas o cheiro e o gosto da infância ficaram na lembrança. Agora o cuidado com os cabelos, o cheiro forte do perfume doce, a carícia dos vestidos rodados armados com anáguas rendadas que davam lindas formas à nossa silhueta, os sapatos de salto alto, os ternos para os meninos, o vai-vem na praça, os olhares atentos nos flertes, os bailes abrilhantados por famosas orquestras, os corpos colados rodopiando ao som dos boleros românticos, as cálidas carícias, palavras roucas ao pé do ouvido. Todos os sentidos em ação na vivência de momentos inesquecíveis. Momentos que se transformam em horas, dias, anos e...
A maturidade é inevitável.
A vida adulta na cidade grande nos remete a outras sensações. O barulho do ronco dos motores misturado ao som dos radinhos de pilha dos passageiros do ônibus lotado. A visão embaçada pela espessa fumaça, as mãos procurando apoio para o equilíbrio. O gosto ácido da responsabilidade misturado ao prazer da busca por um lugar ao sol. É assim que as lembranças vão sendo substituídas por outras que nascem agora tendo como cenário um mundo diferente não menos desejado.
Aos poucos, a adaptação. Com ela, outras belezas se incorporam ao cenário da passarela dos sonhos. Agora o trajeto tem outras cores: jardins floridos, bandeiras tremulando no alto dos prédios, cheiro suave das panificadoras, o apito atento do guarda de trânsito, o contato suave dos grossos agasalhos a nos proteger do frio intenso são coisas que fazem parte do cotidiano.
É a vida que pulsa dentro da gente, proporcionando uma existência feliz. Quando se percebe... O outono chegando, não cinza, mas de um verde-esperança, de um azul-céu de paz, um lilás de tranquilidade, um celeiro de energia e alegria de viver. Outros projetos, outros sonhos e o renascimento na busca da vida simples do interior. O retorno, não para a terra natal, mas para a muito charmosa e não menos querida Cidade Azul. 
Por que essa escolha? Porque, das muitas fugidas da cidade grande nos feriados e nas férias, é Rio Claro a cidade escolhida: além do aconchego familiar, a tranquilidade e a beleza no seu jeito provinciano de ser. O jardim público com a charretinha levando as crianças para passeios e os carrinhos de pipoca e sorvete me trazem de volta o encanto da infância. A beleza da Floresta Estadual, com as ninféias perenes colorindo o lago, os aguapés lilases enchendo de magia o local.
Os ipês encantando as avenidas e o calor dos amigos que já fazem parte da minha vida influenciaram sobremaneira minha decisão de aqui viver. E o destino quis que a residência tivesse a sacada voltada para o pátio da velha estação de trem. E, para mais além no horizonte, o grande horto florestal faz rescindir o cheiro suave dos eucaliptos e serve de palco para revoadas de pássaros no cair das tardes. Isso sem contar o espetáculo do nascer do sol e de sua irmã lua. 
Mas... como nem tudo são flores em qualquer caminhada, minha cidade do coração também já não é a mesma. Cresceu, está com cara de cidade grande. Com lindos espaços de lazer e comércio muito desenvolvido, perdeu um pouco da sua timidez, mas continua aconchegante. Apenas uma coisa me deixa contrariada: o barulho fora do comum a me atormentar dia e noite.
O som do apito do trem que eu adorava na infância agora me incomoda, pois as enormes locomotivas abastecidas com óleo diesel e seus apitos estridentes e longos ofendem meus tímpanos.  Estridentes e dispensáveis, uma vez que o trânsito não é tão grande e uma cancela é fechada para evitar acidentes quando o comboio passa. Por causa do barulho infernal, os cães recolhidos da rua e alojados em um espaço perto dos trilhos põem-se a latir nas madrugadas.
Os animais não têm culpa. É louvável a iniciativa da ONG em tirar das ruas os animaizinhos indefesos. Os maquinistas, talvez cumprindo normas, também não são culpados. Mas, sinceramente, o que eu mais gostaria agora é ouvir o som do silêncio para dormir o sono dos justos.

Cheiro de Infância

Texto de Terezinha Cattai

Nossa memória tem o poder de trazer para o momento presente, o passado de muitos anos, com todas as emoções, os mínimos detalhes, apenas com um cheiro, o cheiro da infância.
Cada vez que eu entro na Escola Joaquim Salles, na rua 7 avenidas. 5 e 7, (a primeira escola de Rio Claro), agora para votar nas eleições, sinto esse cheiro e o passado volta em minha memória, em meu coração.
Foi o tempo em que cursei o Primário as 1ª, 2ª, 3ª e 4ª série.
Sinto o cheiro de crianças entrando nas salas de aula; o cheiro da madeira do assoalho; das carteiras envernizadas, com cadeiras grudadas e o lugar para colocar o tinteiro; o cheiro das merendas na cozinha : sagu com groselha, arroz doce, canjica, sopa de macarrão, pão com carne moída; dos gabinetes dentários (eram dois), o perfume das professoras, enfim, o cheiro de simplicidade e de enorme felicidade !
As professoras eram comprometidas com os alunos e ensinavam com amor.
Cada uma me deixou uma lembrança particular guardada com muito carinho.
A professora boazinha, muito simples e humilde da 1ª série; já a da 2ª série era muito chique e elegante, com seu colar de pérolas, rouge, batom e salto alto; a da 3ª série era muito, muito brava e me fazia tremer de medo. E a professora da 4ª série que eu mais gostava, infelizmente para mim, deixou a classe no meio do ano para ter seu filho e em sei lugar veio outra que também cativou meu coração.
O momento mais aterrorizante para nós crianças pequenas, era quando na hora da fila de entrada , o diretor andava entre os alunos falando sobre disciplina e respeito, mas o que ele passava mesmo era pavor, porque gritava e ameaçava. Nunca me esquecerei do Diretor Nelson Stróili.
Mas, esta escola tinha (tem) um lugar que para mim era mágico e lá o cheiro de infância feliz  é ainda mais presente. É cheiro de alegria, de risadas, gritos, inocência, carinho, amizades, brincadeiras.
É o pátio de terra onde há uma enorme mangueira centenária e suas raízes fora do solo, grossas e longas, eram nossos bancos para tomarmos nossos lanches.
Falando nisso, ainda me lembro do pedaço de pão com marmelada, no guardanapo xadrez e a limonada na garrafinha dentro da lancheira de plástico.
E depois do lanche vinham as brincadeiras deliciosas e muito divertidas: pega-pega, esconde-esconde, amarelinha, pular o comprimento entre dois riscos na terra, pular corda (várias modalidades), bobinho com bola, rodas cantadas, barra-manteiga, passa anel, queimada e muitas outras.
Era uma alegria, uma felicidade espontânea e verdadeira que não dependia de quanto era o salário do pai de cada criança, da beleza, da roupa, do sobrenome, se a família tinha um carro,  casa própria, se era branca, negra, japonesa, ou do bairro onde morava , todas as crianças brincavam juntas.
Por isso, a Escola Joaquim Salles, tem e sempre terá um lugar muito carinhoso, lindo, mágico em meu coração, com este cheiro de minha infância querida.

INTERPRETANDO RIO CLARO - “CIDADE AZUL” SENSORIALMENTE

Texto de D. Maria de Lourdes Pinto 
Em uma fria manhã do mês  de junho de 1958, chovia levemente na  “Terra da Garoa”. Com muita tristeza eu, meu esposo, minha filha de oito meses e meus pais deixamos São Paulo. 
Mas havia um pormenor que compensava essa melancolia; iríamos iniciar uma nova vida, com novos empregos. Fomos contratados, eu e meu esposo para trabalharmos na Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras de Rio Claro,SP, que estava iniciando suas atividades. 
Viajamos de trem da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, vagão pulman, muito confortável. Desembarcamos na estação de Rio Claro. Trouxemos apenas algumas malas, os outros pertences deveriam chegar com a mudança que seria descarregada na Avenida 5 com a Rua 4, em nossa futura casa, antiga, mas acolhedora, alugada com bastante antecedência, para ser pintada e limpa. As ruas não tinham nome, eram numeradas, achei muito interessante.
Tarde agradável, temperatura amena; tiramos nossos agasalhos. Clima tão diferente de São Paulo ... Rio Claro nos recepcionou  bem. À primeira vista tivemos boa impressão. Notei que as ruas e avenidas eram limpas e sem buracos, belos jardins, lindas praças. 
No dia seguinte acordamos cedo, com o apito do trem chegando na Estação; apesar do cansaço da viagem e de algumas arrumações necessárias para nos acomodarmos, tivemos que nos levantar. 
Estávamos todos ansiosos para conhecer com maiores detalhes a vida desta cidade interiorana.
Meu pai, idoso, muito metódico, acordou mais cedo do que os demais. Aprontou-se: terno, gravata e chapéu, como de costume e saiu para comprar pão e leite na padaria, próxima de nossa residência.
Um pouco mais tarde deixando a nenê com minha mãe, sai para fazer algumas comprinhas.
Caminhando vagarosamente, reparando nos números das ruas e avenidas, pois não conhecia a cidade, me informando onde ficava a quitanda e açougue, olhei distraídamente para o céu, me chamou a atenção, estava completamente azul, puríssimo, sem nuvens, de um belíssimo azul, como o manto de Maria, me emocionou.
Chegando em casa, comentei com meu pai, ele como sempre tinha uma história para me contar.
- Minha filha, perto do jardim público, aliás, muito bonito, tinha uma banca de jornal e conversando sobre Rio Claro, o jornaleiro me informou que a cidade se chama Rio Claro “Cidade Azul”. Gostei da explicação. Estou aprendendo.
Satisfeita com a explicação de meu pai, volto a narrar o que me chamou  a atenção também:
Dois apitos que soam diáriamente muito fortes em horas certas, de doer os tímpanos. Depois fiquei sabendo que eram da Cervejaria Caracu.
Ouve-se também o sino da Igreja Matriz, na Praça da Liberdade, repicando alegremente, chamando os fiéis para as missas dominicais.
Outros sons que ouvimos de minha casa, eram os acordes das orquestras que abrilhantavam os bailes da S ociedade Filarmonica Rioclarense aos sábados e também os sons dos bailes carnavalescos daquele clube.
Hoje, passados os anos, já não se ouvem mais alguns destes sons mencionados nesta narrativa.  Eles me fizeram esquecer o borburinho da capital paulistana e  eu me tornei uma Rioclarense,  “Graças a Deus.”

domingo, 19 de junho de 2011

Objetos Biográficos

Imagem captada na net, apenas para ilustrar

Nas oficinas de abril/maio, trabalhamos o conceito de objeto biográfico vinculado à Literatura. Partimos do pressuposto de Eclea Bosi:

"Podem ser considerados objetos biográficos, aqueles que envelhecem com o possuidor e se incorporam à sua vida(...). Cada um desses objetos representa uma experiência vivida, uma aventura afetiva (...) Eles são incorporados à vida das pessoas, representam experiências vividas, uma aventura afetiva do proprietário (...) Só o objeto biográfico é insubstituível: as coisas que envelhecem conosco nos dão a pacífica sensação de continuidade."

Nesse contexto, analisamos a obra "O Penhoar Chinês", de Rachel Jardim; também, o conto "Os objetos", de Ligya Fagundes Telles; a letra da cançao do Chico Buarque e Francis Hime "Trocando em Miúdos" e, finalmente, o poema "Despedidas", de Affonso Romano de Sant'Anna.

Os textos produzidos pelos oficineiros, em prosa e verso, são marcados pela delicadeza das memórias reinventadas, que, quando partilhadas, recriam uma época.

A tesoura de alfaiate

Texto de D. Mariângela J. P. Gomes

Foto captada na internet. Tesoura semelhante à do relato.


          Tantos são os objetos que tenho guardados em minha memória, no coração e no meu baú. Hoje parei em frente a ele e resolvi abri-lo.  Qual não foi a minha surpresa no primeiro toque,  ao deparar com um pacote que fez meu coração bater mais forte. Percebi logo o que era,  então o desfiz.

          Ali estava a tesoura do Heitor, sua companheira  de trabalho durante todos os muitos anos que exercera o honroso ofício de alfaiate. Comovida, olhando para ela, leio gravado próximo ao parafuso que prende as duas lâminas : GALIER – PARIS.

          É uma tesoura bem grande com pontas longas bem finas, que prestou muitos serviços no passado, hoje na melhor idade, já com seus quase oitenta anos, descansa aposentada no baú.

          Transporto-me agora ao passado, é de manhã, estou na loja, isto é, Alfaiataria Excelsior, que leva o slogan : “Elegância Máxima em Linhas Diferentes”.

           Heitor defronte ao balcão largo e comprido estende a peça de casemira, em seguida com o giz e esquadro, traça o molde com as medidas do freguês. A fita métrica sempre dependurada no pescoço. A tesoura ali ao lado, ansiosa, intrépida, altiva, certeira, inicia mais uma jornada, guiada como numa dança por mãos tão hábeis, bailando para cá, girando para lá sobre os traços no tecido, cortando com suas lâminas afiadas, vai dando formas ao modelo.

          Quem será o elegante felizardo que irá desfrutar o belo traje?

          Volto ao presente, a tesoura aqui ao meu lado me remota a muitas outras recordações daquele tempo bom e feliz!




Fiel companheiro

Texto de Geni Bizzo

Foto tirada pela autora do texto, no museu da cidade de
Conservatória/RJ; o rádio é igualzinho ao da história relatada.

Dia 19 de Junho de 1958. A hora? Não me lembro. De pé, ouvidos atentos embolávam-nos ao redor de pequenina estante acompanhando a voz nervosa do locutor esportivo naquele dia que seria um marco na história do futebol brasileiro. Oito anos depois da derrota histórica no Maracanã quando perdemos para o Uruguai o Brasil apresentava uma nova geração de craques que dominou o cenário mundial do futebol por alguns anos. O mundo se encantava com jogadores como Pelé e Garrincha -principais estrelas- e nós, nos encantamos com os suecos que, embora derrotados, aplaudiram de pé a seleção quando o capitão Bellini recebeu a taça e a colocou sobre a cabeça para que todos pudessem fotografar.

A transmissão era muito ruim com chiados que dificultavam o entendimento, mas nosso personagem principal foi fundamental para que pudéssemos vibrar soltando o grito de campeão sufocado na garganta desde 1950. Estou falando do nosso amigo inseparável que nos atendia sempre embora levasse uns safanões vez em quando para que trabalhasse direito. Um rádio SEMP, tamanho médio que fora adquirido três anos antes para que meu pai pudesse acompanhar o resultado das eleições.

Um apaixonado pela cidade e admirador ferrenho de Joaquim Geraldo Correa candidato a prefeito de Araçatuba em 1955, meu pai acompanhava passo a passo o resultado do pleito. No dia mesmo que fora às urnas, a meia noite colava o ouvido no rádio para ouvir o nome do seu candidato quando da retirada da primeira cédula, da primeira urna. Dizia ele que o primeiro voto computado é que decidiria a eleição. Zizinho( como era carinhosamente chamado) foi eleito e, graças a ele o rádio passou a ser nosso companheiro fiel.

Nessa época a Radio Nacional do Rio de Janeiro vivia seu apogeu e chegava aonde não chegavam a escola nem a imprensa facilitando inclusive a compreensão dos analfabetos. Mesmo nas fazendas mais distantes e isoladas as pessoas podiam acessá-lo graças às baterias ou acumulador e acompanhar a divulgação das músicas “caipiras” que traziam a essência e o romantismo do homem do campo.

A programação da rádio era imensa, mas o forte eram os shows de auditório principalmente comandado por Cesar de Alencar onde desfilavam estrelas como Emilinha Borba, Marlene, Ângela Maria, Ivon Curi, Luiz Gonzaga,Cauby Peixoto e uma constelação imensa que levava os fãs clubes ao delírio e não raro ás brigas na defesa de seus ídolos. As eleições de rei e rainha do rádio eram acompanhadas com muita atenção. Também o grande sucesso da época O Repórter Esso – “Testemunha ocular da história” “O primeiro a dar as últimas” - cuja música tema ecoa em nossos ouvidos até hoje - era programa obrigatório em todos os lares.

Acompanhávamos tudo com muita atenção e aproveitávamos para cantarolar as canções das paradas de sucesso, principalmente as marchinhas de carnaval e as serestas Outro grande fenômeno eram as radio novelas, mas nos eram proibidas, pois segundo meu pai era só choradeira e mau exemplo. Gostávamos e ouvíamos os demais programas quando conseguíamos, pois como já disse as transmissões eram às vezes horríveis e com os chiados perdíamos a metade da apresentação ou a paciência quando então desistíamos. Os Programas como: Consultório sentimental, Jararaca e Ratinho, Seriado “Jerônimo – o herói do sertão” “Edifício Balança, mas não cai” faziam parte de nossa seleção.

Embora a Rádio Nacional fosse a mais famosa ouvíamos também outras emissoras O Programa PRK 30 esse da Radio Mayrink Veiga – era o preferido de meu pai que dava gostosas gargalhadas. Também sintonizávamos a rádio Record - A voz de São Paulo, Difusora, Tupi e tantas outras que se dividiam nas transmissões diretas ou em cadeias. A rádio Bandeirantes - líder no esporte – também transmitia o famoso programa “Na serra da Mantiqueira” com a dupla caipira mais famosa do Brasil – Tonico e Tinoco - Acostumados a ouvir e imaginar nos perdíamos em divagações – casar a voz com seu dono era nosso sonho.As donas de casa cumpriam seus afazeres domésticos sempre com um rádio ligado e o ouvido atento.

As emissoras locais eram também muito ouvidas principalmente durante o dia quando as transmissões de emissoras da Capital se tornavam quase impossíveis. Programas como-“Lembrei-me de Você” onde se oferecia uma música por ocasião de aniversário ou casamento, e a “Ave Maria” às dezoito horas eram sagrados em nossa casa.

Os anos se passaram e o pequeno rádio acompanhava nossa trajetória. Quando surgiram os Movimentos como Jovem Guarda, Tropicalismo, e Festivais da MPB já trabalhávamos e estudávamos à noite e, com os ouvidos colados por causa do baixo volume obrigatório para não acordar os demais, acompanhávamos nossos ídolos não nos importando com a hora tardia e com a obrigação de acordar cedo.

Com o advento da TV acentuado pela revolução de 64 houve o declínio dos Anos de Ouro da Rádio Nacional – conhecida como “Escola do rádio” possibilitando a ampliação de outros canais, e a devoção que se conhecia pelos programas foi transferida para a Televisão embora sem aquele brilho do rádio.

As transmissões pela TV custaram a chegar ao interior, mas mesmo depois de sua chegada nós fomos os últimos a te-la em casa para podermos acompanhar, pelo menos, os vídeos tapes. E durante muito tempo ainda o rádio continuou sendo nosso fiel companheiro mesmo porque não era necessário parar os afazeres para nos entregarmos aos sonhos coisa que a TV exigia.

As muitas histórias que esse amigo nos proporcionou ficaram registradas em nossa memória e descrevê-las seria impossível, mas o maior registro foi com certeza o da importância que ele teve em nossas vidas. Mas como nada é definitivo ele também “passou”.

Que pena! Foi ficando no esquecimento depois que deixamos nossa casa. Soubemos que seu interior foi comido por ratos guardado que estava num quartinho dos fundos. Depois não tivemos mais notícias, mas a lembrança e a saudade, essas ficaram e ficarão para sempre.

Relíquias de Família



Texto de Maria de Lourdes da Silva Pinto


Em minha casa possuo muitas relíquias de família, como: móveis de sala de jantar feitos no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo., que pertenceram aos meus sogros; quadros, porcelanas, diversos cristais, lembranças da vida dos entes queridos que já nos deixaram.
Entretanto, que me emocionaram muito são: uma caixa de cartas, amarelecidas pelo tempo, escritas pelos meus pais - João Alfredo e Maria - e pelo meu avô materno - João Carvalho - que não cheguei a conhecer. Estas cartas contam fatos de suas vidas. Ao lê-las, senti o quanto o amor e o carinho eram importantes para eles.
Transcrevo aqui, na íntegra, uma carta de meu avô João endereçada ao meu pai, que me emocionou, deveras, cujo assunto era a resposta do "pedido de casamento" e meus pais ao meu avô:

"João Alfredo,
Fiquei satisfeito com a tua carta. Estamos entendidos. Auguro que serão felizes. A Maria é boa mocinha. Não tem preparo, mas havendo indulgência de parte a parte tudo caminhará bem. Devemos confiar 'Naquelle' que distribue com abundância os seus tesouros às nossas pobres creaturas, a quem devemos nos envergonhar da nossa pequenes, porque 'Salomão', me parece que foi ele, no livro da Sabedoria, disse: 'Que o pó, o humile pó também se elevou às alturas'. Há, além disso, o atavismo de família. Os avós dela foram bondosíssimos e de probidade invejável. Por conseqüência, Avante!
Causa lástima a posição do 'Hermes*'. Aquilo é um pandemonium. Estão doidos. E o tropeiro lá se foi para o Sul, a cata de novas diabruras. Que fique por lá e não volte mais. São os meus desejos.
Excetuando eu, todos daqui vão passando bem. Antes de ontem fiz 70 anos, porisso o miolo está esfarelado.
Saudações a todos e até.
Teu amigo certo,
João Carvalho.
São Paulo, 27 de janeiro de 1912."

Continuando, a outra relíquia, também importante para mim, é um porta-guardanapos de prata, que pertenceu à minha tia Maria Santos, irmã de meu pai. Esta relíquia possui grande valor estimativo. Titia, quando entrou para o convento de São vicente de Paulo, como freira vicentina trocou o seu nome, como era de praxe, por Luiza de
Marillac, discípula do santo. Ela também fez votos de pobreza, de modo que seus pertences de valor foram distribuídos. Ao meu pai ela doou o porta-guardanapos que, após o falecimento de meu pai, foi entregue a mim, como recordação de titia Maria. 
Por isso, escolham com atenção; criem e renovem espaços de suas casas com a mistura de móveis, enfeites e relíquias da família, herança de familiares queridos, não vendam e não doem. Enquanto viverem, conservem essas preciosidades.


* Referência ao presidente do Brasil, Hermes da Fonseca.








Meus objetos antigos

Poema de Letícia D. Brunelli


Na vida, coisas vem ... coisas vão.
Algumas porém, vão ficando
pois nos tocam fundo no coração,
nosso passado nos lembrando.

Tenho dois objetos na vida para me lembrar
de uma pessoa que me foi dada para amar.
Um é de ouro, outro de porcelana,
ambos presentes de minha avózinha  Ana.

De ouro é um anel bem pequenino
onde meu nome quase não se consegue ler
O outro é um bule de chá, que traz consigo
um suporte que serve para o líquido aquecer.

O anel ganhei quando completei sete anos
Tem na chapinha meu nome gravado.
Da minha mão esquerda nunca foi afastado,
só dela saindo em raros e especiais eventos.

Então fui crescendo ...
e o anel foi mudando
de dedinho em dedinho,
chegou no mindinho !

O bule que da minha Bisavó tinha sido,
Tem frisos dourados e rosas em decalques;
é de porcelana francesa M.Rodon de Limoges,
peça remanescente de um conjunto desaparecido.

Na cristaleira ficava, e eu com encantamento
Sempre o admirei, desde tenra idade.
Vovó o trouxe para mim, no dia do meu casamento.
embrulhado tal qual uma preciosidade.

Até hoje o anelzinho está no meu dedo
e o bule exposto entre os meus cristais.
Um dia talvez, o bule atraia algum neto
e ele seja escolhido entre outros quetais.

Quando eu morrer, por certo, vão tirar
O pequeno anel do meu dedo e guardar;
Da sua presença não mais vou precisar
Pois lá no céu Vovó estará a me esperar!

O Cuco

Texto de Dalva Garbuio



Vou escrever o texto que a Professora Sandra passou para nos lembrarmos de algo que tínhamos em casa.

O que veio à minha mente foi um relógio Cuco, que tenho até hoje em minha casa. O cuco de parede funciona e nele vemos as horas e ouvimos as badaladas todas as horas do dia.Ouvimos as badaladas quando o dia começa, é simples, mas muitas recordações me vem à cabeça. Hora do almoço, do jantar, suas badaladas juntamente com o entardecer, as seis horas ou dezoito, hora da Ave Maria.

Ficamos com a alma cheia de alegria, ao recordar que é hora da Ave Maria. As badaladas simples e preciosas, alegram o meu dia.

Cartas

Texto de Terezinha Cattai

Escrever sempre foi um prazer para mim desde que aprendi as primeiras palavras, depois as frases e os pequenos textos.


Quando estava no Primário (antigo 1 .a 4. série) eu adorava as atividades de leitura e escrita, como por exemplo, criar uma história observando uma gravura bonita e colorida que a professora colocava na lousa e com aquela figura eu me esquecia do tempo e do lugar onde estava.

Ao aprender a escrever uma carta e o seu significado em minha vida, descobri uma grande amiga, uma riqueza, uma imensa alegria.

A carta foi um Presente Especial que recebi da vida e sou feliz até hoje, porque apesar de existir o telefone fixo, o celular, o computador, ainda prefiro a carta escrita a mão, com papel especial para cada pessoa e cada momento.

Depois que aprendi a escrever cartas na. 4. Série, a primeira foi para minha tia Shirley que morava em Bauru. Agradeci pela coleção de livros de aventuras com oito volumes e em especial Moby Dick e com ele fiz minha primeira (ficha) Ficha de leitura na 5.série.

Comecei a me corresponder com minhas primas de São Paulo e Bariri.

Por muitos anos me correspondi com minha prima Suzete e para várias cidades onde morou, pois meu tio trabalhou na construção de hidrelétricas em Bariri, Ibitinga, Iacanga, Porto Primavera, Água Vermelha e por último a de Ilha Solteira, quando se aposentou.

Nós nos correspondíamos todo mês . Assuntos nunca faltavam (filmes, paqueras, escola, roupa, cabelo, maquiagem, outros primos, casamentos, aniversários, artistas da TV, passeios, etc.).Sempre havia novidades, eram folhas e folhas de bloco para carta.

Essas cartas fizeram parte da alegria, do encanto, das descobertas, da inocência de minha adolescência e foi um marco especial na minha vida até hoje.

Ingressei no Estado como Professora em agosto de 1981e fui morar em São Paulo, mais um motivo para escrever cartas, para minha mãe, minha prima (agora casada morando em Indiaporâ), para amigas e meus ex-alunos da Escola Puríssimo onde dei aulas entre os anos 79, 80 e meio de 81.

Voltei a morar em Rio Claro em 1990 e as cartas continuavam, agora de São Paulo, Cosmópolis, de Limeira. Mas depois, por alguns anos a carta não fez parte da minha vida, me afastei até de minhas primas e assim ficou um vazio na minha comunicação com tias e primas, porque para mim, telefonar é um tanto mecânico, não consigo falar, transmitir tudo que estou sentindo, só se fala o essencial, algum motivo importante sem detalhes.

Há uns cinco ou seis anos voltei a me corresponder com minhas primas. Nossas vidas tomaram outros rumos, temos outros assuntos, novidades do século 21 mesmo ! Porque tudo está muito diferente de quando começamos a escrever nossas cartas (no século 20).

Mas, é o mesmo sentimento , o mesmo calor humano, a intimidade, o carinho, a saudade de tantos anos de amor, de amizade, de confiança nas confidências levadas e trazidas de volta em folhas de papel.

Por isso, escrever cartas para mim é algo aconchegante, carinhoso, me sinto fazendo parte da vida da pessoa, que parou, pensou em mim, escolheu as palavras e relembrou algum momento bom ou não, que vivemos juntas em algum lugar, algum dia de nossas vidas.

É como se estivesse me dando um abraço muito carinhoso para matar a saudade criada pelo tempo e pela distância.

As cartas fazem parte da minha vida, me sinto feliz ao escrevê-las, ao recebê-las e mesmo com toda complexidade, facilidade e rapidez dos computadores, eu ainda prefiro escolher um papel, pegar minha caneta, colocar meus óculos, pensar na pessoa e escrever uma carta com carinho e atenção especialmente para ela.

Tenho uma sobrinha de 21 anos, Aline, jogadora de futebol de salão, estudante de Educação Física, que está morando em Jacareí e também gosta de escrever , me escreve cartas lindas que me emocionam.

E através de suas palavras escritas, eu sinto o seu carinho, a sua atenção e o seu amor por mim, porque, apesar do computador, do celular, do telefone, ela que é jovem, escolhe um papel, pega a caneta, pensa em mim e me escreve CARTAS.

Moro numa pinacoteca

Meu amuleto

Texto de Hedi Duarte

Foto feita pela autora do texto

Eu não sei desde quando este crucifixo faz parte de nossa família, mas sei que quando eu nasci, ele já estava entre nos..........e quando pedíamos proteção a Ele nas horas difíceis, sempre fomos atendidos !

Quero relembrar momentos importantes da presença simbólica desta cruz entre nos.

Nasci em Berlin, capital da Alemanha, onde passamos toda 2. guerra mundial. Os bombardeios foram intensos, o medo de morrer constante. Eramos católicos, mas nem sempre frequentavamos a missa aos domingos, porem na “Missa do Galo” do Natal e na “Missa de Pascoa “ nunca faltavamos.

Lembro-me quando as sirenes tocavam para anunciar outro ataque aéreo, princi-palmente durante a noite, minha mãe me agasalhava, muitas vezes dormindo, e papai ainda me enrolava junto com o crucifixo, em meu edredom. Só com os documentos pessoais no bolso do paletó e comigo no colo, junto a figura de Jesus Cristo, meus pais corriam para o “Bunker”, um abrigo subterrâneo durante os bombardeios.

Alguns dias antes do fim da guerra papai resolveu escapar do comunismo que se aproximava e fugimos de nossa casa, deixando tudo para traz,saimos apenas com uma pequena valise de mão, trazendo algumas roupas e o crucifixo com Cristo. Não havia mais nenhum meio de transporte e assim andamos durante 3 semanas por estradas e caminhos para bem longe da cortina de ferro. As vezes uma fruta, um pedaço de pão e um copo de leite, ganhos de algum agricultor que encontramos no percurso, era nossa alimentação. Com sorte, as vezes conseguíamos permissão para dormir dentro do estabulo, junto a cavalos e vacas, em cima de um monte de feno.

Nestes tempos tão difíceis, muitas e muitas vezes eu observei meu pai em oração e discretamente com a mão na valise, eu acho que ele pedia orientação e animo para Jesus. Finalmente instalamo-nos em outra cidade e tudo se normalizou aos poucos.

Alguns anos depois viemos para o Brasil.

Novamente deixamos tudo para traz , menos o crucifixo, só que desta vez em clima de paz, Graças a Deus. Como imigração não é turismo, havia também limitações para bagagens. Minha mãe apenas trouxe um prato e um talher para cada e uma manteigueira como lembrança, além das roupas, também a maquina de costura, o meu violino e a harmonica.

O reinício em terra desconhecida também não foi facil. Meus pais já tinham idade avançada, mas nunca ouvi uma palavra de desanimo, ao contrario, gratidão por ter encontrado um canto na terra onde reina paz, brilha sempre o sol e termos frutas e alimentos frescos o ano todo.

O crucifixo de Cristo era sempre destaque na sala e parece que emanava paz, união e alegria.

Casei-me, o crucifixo voltou para meu lar após o falecimento de meu pai, pois minha mãe veio morar comigo.

Nas horas mais pesadas, quando eu já não tinha mamãe, perdi meu neto, meu filho , e após mais 3 anos, meu marido também. Tenho certeza que foi a presença do crucifixo com Cristo que me impulsionou para longe da depressão. Hoje eu considero este “Jesus na Cruz” o meu verdadeiro amuleto.